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Da patente à política pública: BH transforma debate sobre deep techs em propostas para a soberania nacional

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Dois dias de debates sobre ciência, financiamento e inovação terminaram nesta quinta-feira (30), no BH-TEC, com um passo além do diagnóstico. Lideranças do ecossistema mineiro transformaram os desafios discutidos no Fórum Brasileiro de Deep Techs em recomendações para fortalecer empresas de base científica e orientar políticas públicas para o setor.

As propostas construídas durante o Deep Tech Policy Lab serão incorporadas a um relatório regional e, posteriormente, a um documento nacional. A agenda consolidada será apresentada em São Paulo, depois de o Fórum percorrer as cinco regiões do país e ouvir pesquisadores, empreendedores, investidores, empresas, universidades e gestores públicos.

Os participantes do fórum tiveram que planejar propostas viáveis para desafios reais relacionados a deep techs | Gustavo Andrade/Wylinka

“Não estamos discutindo apenas o futuro de startups. Estamos discutindo a capacidade do Brasil de responder com tecnologia própria a desafios como saúde, clima e transição energética. Transformar ciência em capacidade produtiva é uma agenda de desenvolvimento e soberania nacional”, afirma Marco Crocco, presidente do BH-TEC.

“O fórum tem como objetivo desenvolver os ecossistemas locais de deep techs. Por isso, ele é um evento nacional que acontece em cada uma das regiões para considerarmos as especificidades e ter a voz desses ecossistemas locais no direcionamento do que precisa ser feito para conseguirmos gerar mais soluções a partir da ciência no país”, destaca Ana Calçado, cofundadora e CEO da Wylinka.

Diagnóstico vira proposta

O primeiro dia do Fórum, realizado na Escola de Engenharia da UFMG, colocou em discussão os obstáculos enfrentados por quem tenta transformar uma descoberta científica em produto, empresa ou solução de mercado. Na manhã seguinte, no BH-TEC, um grupo de lideranças retomou as questões levantadas nos painéis para construir propostas de atuação.

O trabalho passou por desafios como financiamento de longo prazo, transferência de tecnologia, propriedade intelectual, interação entre universidades e empresas, acesso a laboratórios, segurança regulatória e desenvolvimento de mercados para tecnologias de alta complexidade.

Primeiro dia do Fórum Deep Techs
O primeiro dia do fórum contou com painéis de nomes de peso de diversas áreas da tecnologia | Gustavo Andrade/Wylinka

As contribuições não ficaram restritas aos participantes do Policy Lab. Durante o primeiro dia, o público pôde registrar desafios, oportunidades e prioridades por meio de um formulário participativo. O material será analisado pela Wylinka e incorporado aos estudos produzidos após a edição de Belo Horizonte.

Realizado pela Wylinka, com coidealização da Caos Focado, correalização regional do BH-TEC e patrocínio nacional da Finep, o Fórum tem o CEPID BRIDGE/FAPESP como parceiro metodológico. A proposta é reunir evidências regionais antes de formular recomendações de alcance nacional.

Da ciência ao capital

Com o tema “Ciência, dados e crescimento: inovação em alta velocidade”, a programação começou com a palestra da pesquisadora Luna Barroco de Lacerda, do CTVacinas e da Fiocruz Minas. Ela apresentou o caminho de uma pesquisa sobre malária iniciada com amostras de pacientes na Amazônia, construída por uma rede internacional e publicada na revista Nature.

A trajetória mostrou uma das questões centrais do Fórum: o Brasil produz ciência capaz de responder a problemas complexos, mas ainda enfrenta dificuldades para levar descobertas pelo desenvolvimento pré-clínico, produção, regulação e chegada ao mercado.

Luna Lacerda, do CTVacinas, no Fórum Brasileiro de Deep Techs
Luna Lacerda foi uma das pesquisadora publicadas na revista Nature por estudo sobre vacina para malária | Gustavo Andrade/Wylinka

Os três painéis acompanharam esse percurso. “Da Ciência ao Mercado” reuniu representantes da FabNS, da InnoVec e da Unidade EMBRAPII CTNano para discutir a transformação da pesquisa em negócio. “Removendo Barreiras para Inovar” tratou de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e articulação institucional. “Capital para Mudar o Mundo” colocou frente a frente Finep, Fapemig, ABGI Brasil e Fundep para discutir os instrumentos de financiamento exigidos por empresas que demandam mais tempo, ciência e investimento.

O perfil das inscrições confirmou a diversidade buscada pela organização. Foram 347 inscritos, ligados a empresas, universidades, institutos de pesquisa, órgãos públicos, NITs, aceleradoras, incubadoras e habitats de inovação. O maior grupo, com 32% do total, foi formado por startups e empreendedores.

Belo Horizonte no mapa

A escolha da capital mineira para abrir o ciclo regional de 2026 partiu de uma base científica e empresarial já consolidada. Minas Gerais reúne cerca de 1,4 mil startups e empresas de base tecnológica, responsáveis por mais de 36 mil empregos. Belo Horizonte concentra 42% desses negócios.

Nos últimos cinco anos, o ecossistema da capital movimentou aproximadamente R$ 5,2 bilhões em captações. A cidade também abriga o San Pedro Valley, comunidade formada por mais de 300 empresas, além de universidades, centros de pesquisa, unidades EMBRAPII, parques tecnológicos e instituições de fomento.

“Abrir o ciclo 2026 em Belo Horizonte foi extremamente significativo para a Wylinka. BH reúne uma combinação rara: excelência científica, cultura empreendedora consolidada e atores dispostos a construir juntos. O que vimos no Fórum de BH foi exatamente isso, pesquisadores, founders e gestores públicos sentados na mesma mesa, com disposição para avançar”, afirma Ana Calçado.

Ana Calçado no segundo dia do Fórum Deep Techs
A CEO da Wylinka, Ana Calçado, afirma que Belo Horizonte deu o tom de como querem que todas as edições de 2026 aconteçam | Gustavo Andrade/Wylinka

As discussões realizadas nos painéis e nos encontros entre os participantes alimentarão o relatório regional. O documento levará para a etapa nacional as necessidades de um ecossistema que combina produção científica, negócios tecnológicos e capacidade de articulação institucional.

Soberania em disputa

Deep techs nascem de conhecimento científico avançado e costumam exigir laboratórios, equipes especializadas, infraestrutura, proteção intelectual e ciclos mais longos de investimento. Por isso, não seguem a mesma lógica de startups baseadas apenas em modelos digitais ou comerciais.

A pandemia tornou evidente o impacto dessa dependência. Sem capacidade local para desenvolver e produzir vacinas, medicamentos, equipamentos e insumos, países ficam expostos a cadeias internacionais de fornecimento. Desafios semelhantes aparecem na transição energética, nas mudanças climáticas, nos materiais estratégicos, na segurança alimentar e no domínio de tecnologias digitais.

Painel Da Ciência ao Mercado
O painel “Da Ciência ao Mercado” contou com representantes da FabNS, CTNano e Innovec | Gustavo Andrade/Wylinka

Empresas como FabNS e InnoVec e estruturas como o CTVacinas e a Unidade EMBRAPII CTNano mostram como a ciência pode avançar até processos produtivos, instrumentos, diagnósticos, imunizantes e materiais. O desafio é construir condições para que mais projetos atravessem o chamado “vale da morte” entre a descoberta e o mercado.

A agenda formulada em Belo Horizonte parte dessa relação. Fortalecer deep techs significa ampliar a capacidade do país de responder a problemas estratégicos com conhecimento, infraestrutura e empresas próprias.

BH-TEC na articulação

Correalizador da edição Sudeste, o BH-TEC recebeu o Policy Lab e assumiu a articulação local do Fórum. O papel acompanha a função desempenhada pelo Parque na aproximação entre universidade, setor produtivo, governo e investidores.

Participantes do segundo dia do Fórum Deep Techs
O BH-TEC recebeu os participantes para dinâmicas enriquecedoras no segundo dia do fórum | Gustavo Andrade/Wylinka

A escolha também coincide com o credenciamento federal do BH-TEC no Comitê da Área de Tecnologia da Informação (CATI). A habilitação reconhece o Parque como ambiente apto a receber investimentos previstos na Lei de TICs e a coordenar projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P,D&I) em parceria com empresas.

O credenciamento abre uma nova frente para que companhias beneficiárias da legislação desenvolvam projetos com o BH-TEC. Na prática, amplia os instrumentos disponíveis para transformar parte das propostas debatidas no Fórum em cooperação tecnológica, pesquisa aplicada e novos negócios.

Próximas escalas

Depois de Belo Horizonte, o Fórum seguirá para Santarém, nos dias 5 e 6 de agosto; Porto Alegre, em 17 e 18 de agosto; Goiânia, em 9 e 10 de setembro; e Salvador, em 23 e 24 de setembro. As etapas regionais serão realizadas com UFOPA, Unisinos, Hub Goiás e Senai Cimatec.

Ao longo de sua trajetória, a iniciativa já reuniu mais de 800 integrantes do ecossistema, 80 especialistas e representantes de mais de 60 instituições. O ciclo de 2026 terminará em São Paulo, no dia 2 de outubro, com a apresentação da agenda nacional.

“Os momentos finais do Fórum em BH disseram muito sobre o que estamos construindo. O coquetel estava cheio de conversas que começaram nos painéis e continuaram com uma profundidade que a gente raramente vê em eventos. As pessoas não queriam ir embora, e isso é o melhor sinal que poderíamos ter”, afirma Rodolfo Ribeiro, gestor do Fórum Brasileiro de Deep Techs da Wylinka.

A equipe da Wylinka inicia agora a sistematização das contribuições de Belo Horizonte. O relatório regional será a primeira entrega de um processo que termina em outubro, quando desafios e propostas das cinco regiões serão reunidos em uma agenda nacional para as deep techs.

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