Transformar conhecimento científico em empresas, tecnologias e capacidade produtiva é o desafio central da edição Belo Horizonte do Fórum Brasileiro de Deep Techs, iniciada nesta quarta-feira (29), na Escola de Engenharia da UFMG. Pesquisadores, empreendedores, investidores, gestores públicos e representantes de universidades e empresas se reúnem para discutir como levar descobertas de alta complexidade dos laboratórios ao mercado.
Belo Horizonte abre o ciclo de encontros que percorrerá as cinco regiões do país e dará origem a propostas para uma agenda nacional de desenvolvimento das deep techs. Realizado pela Wylinka, com coidealização da Caos Focado, correalização do BH-TEC e patrocínio nacional da Finep, o Fórum combina debates públicos e uma etapa dedicada à construção de recomendações para políticas públicas.

“Não estamos discutindo apenas programas de empreendedorismo. Estamos debatendo soberania nacional. Desafios na saúde, na transição energética e no enfrentamento às mudanças climáticas dependem da capacidade de produzir ciência e tecnologia. O BH-TEC atua como um ‘Google Tradutor’ entre a universidade e o setor produtivo, o lugar em que patente vira nota fiscal”, afirma Marco Crocco, presidente do BH-TEC.
“É muito emocionante estar aqui. A Wylinka nasceu em Belo Horizonte, fiz meu mestrado na UFMG e construí toda a minha trajetória profissional na cidade. Participar desse movimento tem um significado especial porque queremos fazer com que mais ciência se transforme em solução para as pessoas e em desenvolvimento econômico e social”, destaca Ana Calçado, cofundadora e CEO da Wylinka.
Ciência de alta complexidade
Deep techs nascem de pesquisas científicas capazes de enfrentar problemas complexos, mas costumam percorrer um caminho mais longo até o mercado. Exigem infraestrutura, validação tecnológica, equipes especializadas, capital adequado e cooperação permanente entre universidades, empresas, investidores e poder público.
A edição mineira reúne exemplos desse percurso. A abertura da programação técnica contou com a pesquisadora Luna Barroco de Lacerda, do CTVacinas e da Fiocruz Minas, em uma conversa sobre ciência aplicada à saúde. O primeiro painel trouxe experiências da FabNS, da InnoVec e da Unidade Embrapii CTNano, iniciativas que conectam pesquisas desenvolvidas na UFMG a soluções para empresas e para a sociedade.
“Uma deep tech não se faz em um fundo de quintal. Ela nasce de cooperação, da relação com institutos de ciência e tecnologia e de uma estrutura capaz de enfrentar mercados muito mais complexos. Entender essa dinâmica e transformá-la em propostas de políticas públicas é fundamental para o Brasil”, ressalta Crocco.

Da escuta à política
Os debates realizados na UFMG alimentam uma segunda etapa do encontro. Na manhã desta quinta-feira (30), um grupo de lideranças se reúne no BH-TEC para o Wylinka Deep Tech Policy Lab, oficina voltada à identificação dos principais obstáculos enfrentados pelo ecossistema e à construção de propostas concretas.
O público também participa do processo por meio de um formulário aberto durante o evento. As contribuições serão analisadas pela Wylinka e incorporadas aos estudos e às recomendações produzidos ao final do ciclo nacional.
“Trabalhos consistentes e capazes de gerar transformação são construídos em rede. Estamos aqui para ouvir, debater e criar um olhar comum sobre o que precisa ser feito. Amanhã, vamos consolidar direcionamentos para ações e políticas públicas. Estamos construindo política pública a partir das realidades de cada região”, explica Ana.
Em sua quarta edição, o Fórum Brasileiro de Deep Techs amplia uma articulação que já reuniu, nos encontros anteriores, mais de 800 integrantes do ecossistema, 80 especialistas e representantes de mais de 60 instituições.

Ciclo nacional
Depois de Belo Horizonte, o Fórum seguirá para outras quatro capitais e regiões brasileiras:
- Santarém (PA): 5 e 6 de agosto;
- Porto Alegre (RS): 17 e 18 de agosto;
- Goiânia (GO): 9 e 10 de setembro;
- Salvador (BA): 23 e 24 de setembro.
Os diagnósticos e as propostas construídos nas cinco etapas regionais serão sistematizados em um documento nacional. O resultado será apresentado no Encontro Nacional do Fórum Brasileiro de Deep Techs, marcado para 2 de outubro, em São Paulo.
Programação em BH
A programação desta quarta-feira foi organizada em torno de três desafios centrais para o desenvolvimento das deep techs:
- Keynote sobre ciência aplicada à saúde: conversa conduzida por Ana Calçado com Luna Barroco de Lacerda, pesquisadora do CTVacinas e da Fiocruz Minas;
- Da Ciência ao Mercado: painel com Taiguara Tupinambás, da FabNS; Álvaro Eiras, da InnoVec; e Glaura Goulart Silva, da Unidade Embrapii CTNano. A mediação ficou a cargo de Ana Luiza Canhestro, head de Inovação do BH-TEC;
- Removendo Barreiras para Inovar: debate com Marcelo Speziali, do Fortec e da Universidade Federal de Ouro Preto; André Lanari, do Inatel; e Ricardo Fujiwara, diretor de Inovação da UFMG. A mediação foi conduzida por Cristina Guimarães, diretora de Desenvolvimento Institucional do BH-TEC;
- Capital para Mudar o Mundo: painel com Erick Meira, da Finep; Flávio Belo, da Fapemig; Maria Carolina Rocha, da ABGI Brasil; e Carlos Lopes, da Fundepar. O moderador foi Paulo Mendonça, gerente de Relacionamento e Parcerias da Wylinka.
- Nova rota de P&D

A abertura do Fórum ocorreu um dia depois da publicação, no Diário Oficial da União, do credenciamento do Hub de Inovação Multifuncional do BH-TEC pelo Comitê da Área de Tecnologia da Informação (CATI), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
A decisão reconhece a capacidade técnica e organizacional do Hub para participar de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação no âmbito da Lei de TICs. Empresas beneficiárias da legislação poderão estruturar projetos em parceria com o BH-TEC e contratar startups de tecnologia vinculadas à incubadora para executar atividades de P&D.
“O credenciamento reconhece o BH-TEC como um ambiente capaz de coordenar projetos de PD&I e receber investimentos de empresas beneficiárias da Lei de TICs. É uma nova possibilidade de aproximar o setor produtivo, as startups e a capacidade científica instalada em Minas Gerais”, afirma Crocco.
Nesta quinta-feira (30), o debate deixa o auditório e segue para o BH-TEC. As contribuições levantadas na UFMG serão transformadas em propostas que representarão Minas Gerais na construção da agenda nacional para as deep techs.