Um projeto concebido por estudantes de uma escola pública, a partir de uma provocação da Jornada Científica do BH-TEC, entrou nesta terça-feira (3) no debate sobre uma política pública para as escolas de Minas Gerais. Alunos da Escola Estadual Professor Alisson Pereira Guimarães apresentaram o EcoEscola em audiência pública da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), com propostas que poderão contribuir para o aprimoramento do Projeto de Lei 4.783/2025, que institui a política estadual de arborização escolar e cria o Selo Escola Verde.
A audiência representa um salto de escala para um trabalho que começou dentro da escola. Horta agroecológica, paredes verdes, bicicletário, gestão de resíduos, energia solar e aproveitamento da água da chuva estiveram entre as ideias defendidas pelos próprios estudantes diante do Legislativo. Antes da reunião, eles ainda participaram de uma dinâmica no plenário para compreender como funciona a tramitação de uma lei. BH-TEC e escola também receberam votos de congratulações pelo trabalho desenvolvido.
Presidenta da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia e responsável por solicitar a audiência, Beatriz Cerqueira explicou que a escuta poderá subsidiar a continuidade da tramitação do PL. “As audiências são uma importante ferramenta para escutar a população. É a forma que encontramos para saber qual contribuição podemos dar, a partir do projeto desenvolvido na escola em parceria com o BH-TEC. Todo o conteúdo será encaminhado à comissão em que o projeto está agora, a de Fiscalização, e aos autores.”
“Além do estímulo da juventude a se interessar por ciência, isso se torna uma prática de cidadania. É um resultado que foi além. Só foi possível com a combinação da escola, que quis, e do BH-TEC, que propôs. Temos aqui um projeto de cidadania”, reforçou o presidente do BH-TEC, Marco Crocco.
Do ODS à proposta
O EcoEscola nasceu durante a edição de 2026 da Jornada Científica, programa do BH-TEC que aproxima estudantes da educação básica de ambientes de ciência, tecnologia, inovação e sustentabilidade. A cada edição, a turma é provocada a investigar um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e, a partir dele, pensar soluções relacionadas à própria realidade.
Neste ano, o eixo foi o ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis. Durante cerca de quatro meses, a escola e o BH-TEC promoveram encontros, visitas e atividades com pesquisadores e empreendedores.
“A gente convida os alunos a agirem, a pensarem em uma solução: o que eu posso fazer que vai ajudar a solucionar uma das questões previstas pelo ODS? Foi nesse cenário que surgiu o projeto EcoEscola”, explica Camila Viana, assessora de Sustentabilidade do BH-TEC.
A construção, segundo Camila, partiu dos próprios estudantes. “Conseguimos provocá-los a pensar nesses problemas, a compreender o contexto e o que a ciência e a inovação têm feito. Junto com os professores e com a abertura da escola, veio dos alunos a proposta do EcoEscola e o desejo de ampliar essa experiência.”
Para Luciana Ramos de Almeida Azeredo, coordenadora do Ensino Médio e professora de Biologia e Sustentabilidade da escola, a Jornada abriu uma possibilidade de transformar conhecimento em vivência.
“Quando recebemos o convite do BH-TEC, percebi que era uma excelente oportunidade de produzir conhecimento transformador baseado em experiências reais para esses estudantes. Seria produzir ciência na prática. Só não poderia imaginar que o projeto ganharia tamanha relevância.”
Estudantes no centro
Na audiência, foram os próprios jovens que detalharam o que imaginaram, construíram e ainda pretendem desenvolver. Alexsandra Miranda ressaltou que a proposta busca levar sustentabilidade para além de uma atividade isolada. “O EcoEscola na rede estadual não representa apenas uma iniciativa da nossa escola, mas também um compromisso com a sustentabilidade e o futuro da nossa sociedade.”
Segundo a jovem, a intenção é fazer com que as mudanças ultrapassem os muros da instituição. “Queremos mostrar que é possível colocar a sustentabilidade em prática. O que estamos implementando na escola não é para ficar apenas dentro da escola: é para levar para a nossa casa, para o vizinho, para o nosso bairro.”
Kamily Muniz apresentou as paredes verdes construídas com garrafas PET, solução que combina reaproveitamento de resíduos, arborização e participação coletiva. “A ideia é que os próprios alunos possam trabalhar juntos na construção e na manutenção das paredes verdes e da horta. Está faltando regar uma plantinha? Eu posso ajudar, me disponibilizar.”
Para a estudante, o modelo pode alcançar outras comunidades escolares. “Essa iniciativa pode ser levada para outras escolas, ampliando o alcance e levando novas possibilidades para a comunidade. Assim, podemos criar uma rede de escolas mais sustentáveis, em que os alunos não aprendam apenas matemática e português, mas também lições para o nosso futuro.”
Da horta à mobilidade
O projeto não ficou restrito às áreas verdes. Lucas Gabriel Silva apresentou o bicicletário como uma solução ligada à mobilidade urbana e ao pilar socioeconômico da sustentabilidade. Segundo ele, alguns estudantes já utilizavam bicicletas, mas a falta de um espaço adequado para estacioná-las desestimulava outros colegas.
“Pensamos na construção desse bicicletário como um meio de aumentar o número de estudantes que utilizam a bicicleta. Com um local apropriado e delimitado, eles teriam onde deixar”, explicou Lucas. Segundo o estudante, após a implantação, mais alunos passaram a adotar a bicicleta no trajeto para a escola.
A mobilização incluiu ainda educação ambiental para toda a comunidade. Emilly Paé apresentou uma cartilha elaborada para estudantes, familiares, professores, funcionários e direção. “Temos que cuidar da nossa biodiversidade. A cartilha é para ajudar as pessoas a entenderem a urgência do que está acontecendo no nosso país e que é algo sobre o qual precisamos agir agora.”
Stella Alves levou à audiência propostas para ampliar o projeto no futuro. Entre elas, hortas agroecológicas como laboratórios vivos, sistemas fotovoltaicos, bosque de ipês e estruturas para captação de água da chuva. “Esperamos que o Selo Verde não seja apenas uma promessa no papel. Esperamos ampliar as nossas ações para além do reconhecimento simbólico”, afirmou.
“Nós somos a futura geração”, resumiu Stella. “As EcoEscolas são fundamentais para transformar a educação e garantir a preservação do planeta porque levam à formação de cidadãos mais conscientes.”
Entender para participar
Antes de defenderem suas propostas na audiência pública, os estudantes ocuparam outro espaço da ALMG: o plenário. Em uma atividade de educação legislativa, participaram de uma simulação e conheceram as etapas percorridas por um projeto de lei, desde sua apresentação e análise pelas comissões até votação, sanção ou veto.
Para Kamily Hemily, estudante do 2º ano, a experiência mudou sua percepção sobre a criação das leis. “Eu não imaginava tudo o que uma lei precisava passar para realmente ser promulgada. Achava que era algo mais simples ou mais fácil.”
A experiência ganhou significado especial porque, logo depois, os jovens estariam dentro de um processo legislativo real relacionado ao próprio trabalho. “Uma lei é muito mais do que a gente ver no papel e saber que tem que cumprir. É uma representação para a nossa sociedade, para que tenhamos leis que façam realmente bem para a nossa comunidade”, afirmou Kamily.
A dinâmica foi conduzida por Fernanda Maurício Simões, técnica de Apoio Legislativo. “Buscamos fazer com que os jovens compreendessem o caminho de um projeto de lei dentro da Assembleia: quem propõe, por quais comissões passa, como acontece a votação e o que ocorre depois.”
Atores do processo
Para Fernanda, conhecer esse percurso antes da audiência ajudava os estudantes a compreender que a participação deles não era apenas simbólica. “É interessante que venham participar sabendo que estão dentro de um processo maior, que é a tramitação de um projeto de lei.”
“Queremos fazer com que eles percebam que são atores importantes aqui no Parlamento e que interessa à Assembleia ouvi-los. Foram eles que iniciaram o projeto nas escolas e perceberam a importância de estendê-lo para outras instituições”, acrescentou.
Luciana Azeredo também destacou essa dimensão da atividade. “Ao participarem dessa simulação, os alunos vão percebendo como acontece o processo legislativo, como as leis são criadas, fiscalizadas e chegam até a população.”
“É um momento muito importante de democratização e participação popular, e é isso que a gente quer para a educação”, afirmou a professora.
Ciência e cidadania
Ao apresentar a Jornada durante a audiência, Crocco lembrou que o BH-TEC reúne empresas, laboratórios, projetos de desenvolvimento tecnológico, empreendedorismo e inovação, mas mantém também uma frente voltada à difusão do conhecimento para estudantes da educação básica. A expectativa, segundo o presidente, é que mais de 1,2 mil alunos sejam recebidos pelo Parque em diferentes projetos.
“Temos um objetivo muito claro: incentivar a juventude a se interessar por ciência e por essa atividade tão importante para o desenvolvimento econômico, além da questão ambiental”, afirmou Crocco.
A Jornada transformou esse contato com ciência em uma experiência de participação social. Ao longo do percurso, os jovens não apenas conheceram soluções desenvolvidas por pesquisadores e empresas: foram convidados a identificar problemas, formular propostas e começar a implementá-las na própria escola.
Ao final das apresentações dos estudantes, Beatriz Cerqueira sintetizou a inversão de papéis provocada pela audiência: “Eu que agradeço por vocês estarem aqui dando essa aula.”
Reconhecimento na ALMG
A audiência também reservou um momento para reconhecer o percurso realizado. A ALMG concedeu votos de congratulações ao BH-TEC e à Escola Estadual Professor Alisson Pereira Guimarães pelo desenvolvimento do EcoEscola.
Ao apresentar a homenagem ao Parque, Beatriz destacou a conexão criada entre educação básica, sustentabilidade urbana e desafios concretos da comunidade. A escola recebeu reconhecimento pelo mesmo trabalho desenvolvido no âmbito da Jornada Científica.
A presidente da Comissão também ressaltou a decisão do BH-TEC de levar a experiência ao espaço legislativo. “Quero muito agradecer ao BH-TEC por não ter desistido do Legislativo. A gente tem que ocupar a política em todos os seus lugares.”
Mais do que encerrar uma etapa, a audiência abriu um novo caminho para uma ideia construída por estudantes. O PL 4.783/2025 segue em tramitação e as contribuições apresentadas nesta terça-feira serão encaminhadas para análise no processo legislativo. A finalidade oficial da audiência foi justamente reunir elementos do EcoEscola que possam colaborar para o aprimoramento da proposta que cria a política estadual de arborização escolar e o Selo Escola Verde.
A Jornada Científica de 2026 já havia terminado formalmente. O projeto construído pelos estudantes, porém, continuou seu percurso: saiu da sala de aula, começou a mudar o espaço da própria escola e chegou ao Legislativo como uma experiência capaz de contribuir para uma política destinada a outras escolas de Minas Gerais.