Transformar conhecimento científico em soluções aplicadas ao cuidado exige mais do que reunir empresas e laboratórios em um mesmo endereço. Na abertura do Simpósio HC-UFMG de Inovação em Saúde, nesta quarta-feira (19), o presidente do BH-TEC, Marco Crocco, defendeu o papel dos ambientes de inovação como articuladores entre universidade, setor produtivo e serviços de saúde.
O encontro reúne, até sexta-feira (21), pesquisadores, gestores públicos, profissionais da saúde e empreendedores para discutir como tecnologias, pesquisas e novos modelos de trabalho podem responder a desafios concretos do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Um ambiente de inovação é tudo, menos um condomínio de empresas. É o local onde a patente vira nota fiscal, onde o conhecimento gerado na universidade se adequa ao processo produtivo ou, no caso do hospital, transforma o cuidado”, afirmou Crocco durante o painel de abertura, realizado na Faculdade de Medicina da UFMG.
O presidente do BH-TEC participou da discussão de abertura após a solenidade que abriu oficialmente o simpósio, nesta noite. Em sua fala, destacou que a inovação só se concretiza quando o conhecimento encontra uma aplicação prática e explicou como instituições intermediárias podem criar as condições para que esse percurso aconteça.
Instituição-ponte
“Somos uma instituição-ponte, um grande intermediário. Permitimos que um conhecimento, uma vacina, encontre um ambiente favorável para levar a tecnologia à condição de ser aplicada. Não somos um prédio: somos uma instituição que regula e facilita interações e traz a gestão da inovação”, ressaltou Crocco.
Segundo ele, a convivência entre empresas, centros tecnológicos e pesquisadores gera trocas que não surgiriam de maneira isolada. O BH-TEC abriga laboratórios privados e três centros tecnológicos da UFMG, além de promover encontros e programas voltados à conexão entre diferentes atores do ecossistema.

Crocco também chamou a atenção para as particularidades da inovação em saúde. “Acelerar uma startup da saúde tem características próprias. É preciso ter escala e fazer inovação em rede”, pontuou. Nesse contexto, apresentou o Laboratório de Metodologias de Inovação (LabMIn), criado para acompanhar cientificamente os programas do Parque e transformar as experiências desenvolvidas em pesquisas, artigos, dissertações e teses.
“A relação com o Hospital das Clínicas está sendo discutida e balizada por pesquisadores. Somos um laboratório vivo de inovação”, completou.
Inovação para o SUS
Mediado pela professora Fabiana Kakehasi, o painel “Universidade, Hospital e Ecossistema de Inovação: Integração para a Inovação em Saúde” também reuniu Jacqueline Aparecida Takahashi, pró-reitora adjunta de Pesquisa da UFMG, e José Santos Souza Santana, diretor de Ensino, Pesquisa e Inovação da HU Brasil.
José Santos defendeu que as prioridades tecnológicas de uma rede hospitalar pública devem partir das necessidades sociais e retornar à população.
“Inovação em uma rede 100% SUS tem que ser orientada pelo valor público. Saúde não é mercadoria: é dever do Estado e direito do povo brasileiro. Precisamos de inovações nascidas das reais necessidades do sistema, desenvolvidas no SUS e para o SUS”, afirmou.

O diretor destacou a importância do trabalho multicêntrico, da solidariedade entre polos maduros e emergentes, do compartilhamento de dados e da liderança do Estado nas parcerias com o setor privado. Também apresentou a arquitetura do Centro de Dados e Inteligência Artificial da HU Brasil, estruturada em quatro camadas: coleta e extração; curadoria e anonimização; mapeamento semântico; e pesquisa confiável e inteligência artificial.
“Precisamos superar o fetiche da inovação. Ela não é um fim, mas um meio para promover acesso, justiça social e impacto. Inovação sem acesso amplia a desigualdade. Nossa missão é fazer com que o melhor da ciência e da tecnologia pertença à sociedade brasileira, com a liderança do Estado e a serviço do SUS”, concluiu.
Abertura institucional
A solenidade de abertura reuniu representantes da UFMG, do Hospital das Clínicas e da rede pública de hospitais universitários. Compuseram a mesa:
- Alexandre Rodrigues Ferreira, superintendente do HC-UFMG;
- Arthur Chioro, presidente da Rede HU Brasil;
- Sonia Maria Soares, diretora da Escola de Enfermagem da UFMG;
- Alamanda Kfoury Pereira, vice-reitora da Universidade;
- o reitor Alessandro Moreira;
- Andréa Maria Silveira;
- Sandra Regina Goulart.

A cerimônia marcou o início de três dias dedicados a experiências de inovação do HC-UFMG, saúde digital, transferência de tecnologia, inteligência artificial, empreendedorismo público, startups e soluções para os desafios hospitalares.
A programação inclui discussões sobre a Telessaúde do HC-UFMG, a implantação de uma UTI inteligente em um hospital 100% SUS, experiências de outros hospitais universitários e o reconhecimento e registro de tecnologias desenvolvidas na UFMG. O encerramento, na sexta-feira (21), integra a comemoração dos 98 anos do HC-UFMG.
BH-TEC no simpósio
Além da participação de Crocco na abertura, o BH-TEC conduz duas atividades voltadas à transformação de desafios da saúde em oportunidades de colaboração e desenvolvimento tecnológico.
Nesta quinta-feira (20), o Parque promove uma rodada de negócios coordenada por Patrícia Giudice. Na sexta-feira (21), realiza o Ideathon “Transformando desafios do HC-UFMG em soluções”, mediado por Ana Luiza Canhestro, head de Inovação do BH-TEC.
As ações ampliam uma frente que conecta hospitais, pesquisadores, empresas e startups para desenvolver soluções aderentes às necessidades do sistema de saúde.
Reconhecido como melhor parque tecnológico do Brasil em 2024 e responsável pela melhor aceleradora do país em 2025, o BH-TEC leva ao simpósio sua experiência na transformação do conhecimento universitário em tecnologias aplicáveis: da pesquisa e da formação de novos negócios à melhoria efetiva do cuidado.