A ciência brasileira acaba de conquistar um espaço inédito em uma das instituições mais importantes do planeta. A FabNS, empresa residente do BH-TEC, tornou-se a primeira da América Latina a integrar o CERN Venture Connect, programa de inovação do CERN, organização europeia responsável pelo maior laboratório de física de partículas do mundo e palco de algumas das maiores descobertas científicas da história recente, como a comprovação do bóson de Higgs – popularmente conhecido como “partícula de Deus” – e a criação da World Wide Web.
A conquista ocorre pouco mais de um ano após o Brasil tornar-se Estado Membro Associado do CERN, movimento considerado estratégico pelo governo federal para ampliar a participação da indústria nacional em projetos científicos de fronteira. Mais do que um reconhecimento institucional, a entrada da FabNS abre caminho para a transferência de tecnologias desenvolvidas no maior centro mundial de pesquisa em física de partículas e posiciona uma empresa brasileira entre um seleto grupo internacional de deep techs com acesso direto ao ecossistema da instituição.
“Esse pioneirismo mostra que temos ciência brasileira de ponta capaz de acessar esses ambientes e sentar nessas mesas. Para o Brasil, pode ser a abertura de portas para novas empresas e pesquisas perceberem que esse caminho existe e que é possível participar do desenvolvimento da ciência e da tecnologia em nível mundial”, afirma Taiguara Tupinambás, Chief Commercial Officer (CCO) da FabNS.
O que significa entrar no CERN
Fundado em 1954, na fronteira entre Suíça e França, o CERN é considerado a principal instituição de pesquisa em física de partículas do mundo.
É lá que funciona o Grande Colisor de Hádrons (LHC), acelerador de partículas de 27 quilômetros de extensão responsável por experimentos que ajudaram a confirmar, em 2012, a existência do bóson de Higgs – descoberta reconhecida com o Prêmio Nobel de Física e considerada um dos maiores marcos científicos do século XXI.

Ao longo de sua história, o CERN também deu origem a tecnologias que extrapolaram os laboratórios, como a própria World Wide Web, criada em 1989. A aproximação do Brasil com a instituição ganhou novo impulso em 2024, quando o país concluiu sua adesão como Estado Membro Associado.
“Esta parceria será de grande importância para a comunidade científica brasileira, mas, principalmente, para a indústria nacional de base inovadora, já que vai nos permitir exportar serviços com alto valor agregado”, afirmou a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ao anunciar a adesão do Brasil ao CERN, antes de concluir:
“É prioridade deste governo a reindustrialização em novas bases, com o objetivo de promover e apoiar o desenvolvimento tecnológico e a inovação nas empresas nacionais”.
Transferência de tecnologia
Diferentemente de programas tradicionais de aceleração, o CERN Venture Connect conecta empresas de base tecnológica às tecnologias já desenvolvidas pela instituição por meio de licenciamento, colaboração técnica e acesso a uma rede internacional de pesquisadores, investidores e parceiros estratégicos.
“O programa foi criado para levar tecnologias desenvolvidas em nossos laboratórios para aplicações concretas. Na FabNS, encontramos uma parceira capaz de avaliar e integrar sistemas avançados de fotônica em ambientes reais de pesquisa, exatamente o tipo de colaboração que o programa busca promover. A entrada de uma empresa brasileira também reflete a crescente importância do Brasil no ecossistema de inovação do CERN”, afirma Linn Kretzschmar, líder do CERN Venture Connect.
Após analisar o portfólio disponível, a FabNS iniciou o processo de licenciamento de duas tecnologias desenvolvidas no CERN: um sistema de laser Raman de frequência única e um chip para detecção de correntes elétricas extremamente pequenas, ambos com potencial para integração às plataformas desenvolvidas pela empresa.
“O programa oferece muito mais do que acesso a tecnologias. Ele cria conexões com pesquisadores, instituições e oportunidades de desenvolvimento conjunto. É uma parceria com enorme valor estratégico para a FabNS e para todo o ecossistema brasileiro de inovação”, afirma Taiguara.

Da Suíça para Belo Horizonte
Os primeiros desdobramentos da parceria já começaram. O engenheiro mecânico líder e pesquisador da FabNS, Vitor Monken, passou três dias no CERN para apresentar as tecnologias da empresa, receber treinamento sobre o sistema de laser Raman que será licenciado e estabelecer cooperações com diferentes grupos de pesquisa da instituição.
A agenda também abriu discussões sobre futuras aplicações do nanoscópio PortoSNOM em pesquisas desenvolvidas no CERN e em universidades europeias, além da possibilidade de a própria instituição adquirir equipamentos desenvolvidos pela empresa brasileira.
A expectativa é que os primeiros protótipos cheguem ao Brasil nos próximos meses para testes de integração às plataformas da FabNS, ampliando as possibilidades de aplicação das tecnologias desenvolvidas no CERN.
Um marco para a ciência brasileira
Primeira empresa da América Latina a integrar o CERN Venture Connect, a FabNS passa a fazer parte de um grupo formado por apenas 17 deep techs selecionadas pelo programa.

A conquista amplia a presença da ciência brasileira em um dos principais centros de pesquisa do mundo e reforça o BH-TEC como um ambiente capaz de conectar empresas de base tecnológica a instituições que estão na fronteira do conhecimento científico.
“Mostrar que uma empresa brasileira consegue entrar em um ambiente como o CERN demonstra que temos capacidade de desenvolver ciência e tecnologia em nível internacional. Esperamos que esse pioneirismo incentive outras empresas e grupos de pesquisa a ocuparem esses espaços e fortaleça a presença do Brasil na ciência de fronteira”, afirma Taiguara Tupinambás.