Empreendedorismo

Por trás da proatividade

Por 26 de Abril de 2018 Nenhum Comentário

Por que o adjetivo “proativo” se tornou tão popular na gestão de pessoas? Falamos do assunto em entrevista com Lucas Costa, da DTI Digital.

O dicionário Michaelis define “proativo” como “que se antecipa a futuras mudanças ou problemas; antecipatório”. A palavra proatividade esteve em alta nos últimos, talvez, dez anos, como requisito absoluto em carreira e gestão de pessoas. Uma busca pelo termo no Google retorna como principais resultados artigos como “Proatividade – comportamento que faz a diferença” ou “Como ser proativo: conhecendo a verdadeira proatividade”.

Há algo por trás da obsessão pela palavra, explorada à exaustão da entrevista de emprego às reuniões de feedback. Conservamos com Lucas Costa, sócio-diretor e Gerente de Projetos na DTI Digital. Ele esteve no BH-TEC palestrando sobre Management 3.0: Práticas de gestão para mudanças na inovação.

BH-TEC: O que você entende como proatividade?

Lucas Costa: Eu acho que a proatividade, hoje, está muito associada a duas palavras: risco e diligência. Risco porque hoje estamos vivendo uma transformação digital, na qual há uma incerteza muito grande. Toda ação tem um risco de sucesso e de fracasso. A proatividade entra no sentido de mitigar esse risco, tentando antecipar o que pode dar certo ou errado. E a diligência é a capacidade de resolver problemas. O profissional moderno, em qualquer área ou nível que atue, tem que ser mais que proativo: tem que saber tirar os problemas da frente. O diligente acaba sendo, também, proativo, mas na hora correta. Algumas pessoas e organizações acabam vendo um lado negativo no profissional que se esforça muito para mostrar proatividade, como uma pessoa insegura que sempre quer se posicionar e não sabe a hora de escutar. Isso acaba desqualificando a característica por si só. Muitas vezes, ser capaz de resolver um problema significa ficar calado e escutar.

BH-TEC: Por que você acha que essa palavra esteve tão em alta nos últimos anos?

Lucas Costa: Eu acho que tem muito a ver com a velocidade da transformação digital que está ocorrendo hoje no mundo corporativo e no dia a dia das pessoas como um todo. Esse processo começou aos poucos, com a invenção do computador, e há uns 20 anos, com a popularização da internet, engrenou e, hoje, assumiu essa velocidade que estamos vendo. Proatividade está relacionada com velocidade, no sentido de antecipar riscos, e por isso a demanda por essa característica no mercado vem sendo adequada. Hoje, não dá mais para imaginar um profissional burocrata, que espera as questões chegarem até a ele para endereçar a ação. Proatividade está no pacote básico, não dá para exercer uma função sem olhar além, agregar mais, em um contexto de mudanças constantes e em muita velocidade.

BH-TEC: Na indústria da ciência, tecnologia e inovação, essa demanda por proatividade entendida como uma capacidade de “pensar fora da caixa” e tomar frente para propor soluções pode ser um problema quando não existe espaço para isso dentro da empresa. A característica pessoal “proativa” do funcionário não consegue dar conta do recado sozinha. O que os negócios precisam fazer nesse sentido?

Lucas Costa: Vendo pelo lado das empresas, o mundo corporativo claramente mudou muito nos últimos anos. Quem é líder de mercado, em todos os segmentos, passou por uma transformação cultural para estimular proatividade e criatividade, essenciais para manutenção saudável de qualquer negócio. Antes, a gente ouvia um discurso centrado no aumento da competitividade e produtividade. Mas agora, com a informação fluindo tão rápido, as empresas precisam passar por mudanças para que o profissional proativo possa realmente ajudar. A postura empresarial que não valoriza esse lado está morta. Existe quem está correndo atrás dessa mudança e quem está ficando para trás.

Mas a gestão de pessoas passa, essencialmente, pelas pessoas. Precisamos ser realistas nesse sentido. Uma empresa tradicional que quer se transformar para um paradigma digital e inovador vai ter que mudar o mindset das pessoas. Uma transformação cultural profunda como essa não acontece somente de baixo para cima. Uma mudança significativa pede renovação, pelo menos de pensamento, em algumas cadeiras-chave dentro das organizações. É preciso fazer com que as pessoas que estão na empresa tenham espaço para agir proativamente e que as que estão entrando compreendam essa diretriz organizacional.

BH-TEC: E como isso pode ser feito da melhor forma?

Lucas Costa: Eu acredito em uma cultura adaptativa, em capacidade de resposta à mudança. A palavra incerteza é a única certeza que nós temos. Se você tem uma organização que não tolera o erro, não aceita que para mudar é preciso errar, e que para mudar é preciso ouvir as pessoas, a transformação não ocorre tão rápido quanto necessário. Uma estratégia é montar um comitê de mudança permanente, que vai estar sempre implementando mudanças pequenas, criando melhores práticas. E fazer isso com inteligência, aprendendo com os erros: é permitido errar mais de uma vez, mas não o mesmo erro.

Vejo como interessante uma mistura de técnicas novas e boas técnicas antigas. Por exemplo, fazer experimentações de forma rápida, testando hipóteses e rodando o ciclo novamente, é uma tendência recente, mas sempre documentando aquilo que for relevante do processo, que é uma prática mais antiga e que acaba ficando meio perdida nos dias de hoje. No caso de uma nova tentativa, a empresa sabe melhor o que fazer porque o aprendizado está documentado, e a chance de a nova iniciativa ser bem sucedida aumenta. Mas esse é só um exemplo.

Lucas Costa é sócio-diretor e co-fundador da DTI Digital, graduado em Engenharia de Controle e Automação pela UFMG e Mestre em Engenharia Elétrica pela mesma instituição. É Gerente de Projetos Certificado pelo PMI – Project Management Institute desde 2009 e membro do PMI-MG desde 2010. Possui certificação ACP (Agile) desde 2014.

Inscreva-se para receber nosso conteúdo por e-mail.

Autor BH-TEC

O objetivo do Blog do BH-TEC é compartilhar, por meio das experiências dos nossos colunistas, informações inerentes a CT&I, que perpassam a rotina das empresas de base tecnológica e impactam a vida de todos nós. Bem-vindo(a) a essa brilhante viagem!

Mais posts de BH-TEC

Deixe um Comentário