Inovação e Universidade

“Aceito o risco e me satisfaço em atuar nessa fronteira”

Por 28 de Março de 2018 Um comentário

A pesquisadora e empreendedora Ana Paula Fernandes, sócia da Detechta, fala sobre os desafios de conciliar a carreira acadêmica com a atuação no setor privado

A UFMG é recordista no depósito de patentes no Brasil. Mas esse conhecimento enfrenta dificuldades para chegar ao mercado. Falta estrutura e estímulo para que os pesquisadores se envolvam em atividades ligadas ao setor privado.

A Detechta, spin-off acadêmica que realiza pesquisa e desenvolvimento de vacinas e diagnósticos, surgiu em interface com esse contexto. A universidade é um celeiro de conhecimentos, e a empresa tem a missão de transformá-los em produto. O negócio é fruto do esforço da professora Ana Paula Fernandes em sociedade com os professores Ricardo Tostes Gazzinelli e Flávio da Fonseca.

Conversamos com a pesquisadora e empreendedora sobre os desafios de mudar de trajetória e abraçar novos caminhos, em uma área completamente diferente. Tendo feito a opção por uma carreira híbrida, ela fala da importância de saber dosar tempo e esforço.

Por que você decidiu empreender? Conte um pouco dessa história.

Mesmo trabalhando com pesquisa básica, nos laboratórios da universidade, sempre tive uma motivação muito grande de transformar aquele conhecimento em algo que tivesse aplicação, que transformasse mais rapidamente a vida das pessoas. Muito do que se produz em ciência, ao ser testado em um contexto de utilização, acaba gerando mais conhecimento. Muitas características daquela tecnologia, que não poderiam ser antecipadas de outra maneira, vêm à tona, nos surpreendem e pedem aprimoramento. Essa dinâmica ao mesmo tempo gera trabalho e renda, fazendo girar a roda da economia, mas também a roda da ciência.

No início da minha carreira, era muito difícil fazer essa transição por questões regulatórias. Era necessário um avanço na legislação e até uma mudança no ambiente da universidade, para que ela fornecesse esse estímulo. Durante muito tempo, ouvi as pessoas falarem que interagir com empresas, empreender e mesmo se envolver no desenvolvimento de produtos não era o papel do pesquisador, e que pesquisadores e a universidade saíam perdendo com essa relação. Tudo começou a mudar por volta de 2008, quando colocamos o primeiro produto no mercado (a Leish-tec, uma vacina veterinária para leishmaniose), fruto de uma pesquisa de alto nível, em parceria com empresa. Vimos uma mudança de cultura para que mais patentes se transformassem em produto. Esse período coincidiu com alterações importantes no Marco Legal da CT&I, favoráveis para que professores da universidade pudessem empreender.

Foi aí que resolvi encaminhar a questão de uma forma mais contundente, pragmática. Criamos o CTVacinas com o objetivo de gerar spin-offs como a Detechta, transformando patentes em protótipos e produtos que aproximam a pesquisa acadêmica das empresas da área. Especialmente na área de saúde humana e veterinária, isso requer um investimento muito alto e tecnologia com alto valor científico e tecnológico agregado. As empresas do setor no Brasil não têm o hábito de fazer esse tipo de investimento ou montar uma estrutura interna de P&D. Preferem importar um produto que desenvolver uma nova tecnologia.

Você já tinha tido experiências no mercado antes?

Como pesquisadora, coordenei outros projetos de desenvolvimento de produtos em parceria com outras empresas, via UFMG. Esses projetos tinham como base tecnologias desenvolvidas na UFMG e que despertaram o interesse de terceiros. Foi um excelente aprendizado em relação às demandas de prototipagem, regulatórias e do mercado, que me auxiliam agora em um empreendimento próprio.

A carreira acadêmica é sistematicamente mensurada. Foi necessário abrir mão de alguma coisa nesse sentido?

Essa transição é difícil. Embora eu já seja professora titular da UFMG e pesquisadora nível 1 do CNPQ, ainda tenho as minhas ambições em pesquisa, especialmente quando me deparo com resultados inquietantes dos meus alunos no laboratório ou quando uma nova tecnologia propicia novas abordagens mais profundas. A consolidação da carreira dentro da universidade prioriza a produção do conhecimento científico, a publicação de trabalhos em quantidade e em impacto, a captação de recursos, ensino de qualidade e na fronteira do conhecimento, sem falar nas atividades administrativas. Esperado que um professor titular desempenhe todas essas atividades com muita qualidade. Nesse contexto, a experiência acumulada é fundamental para otimização de tempo e recursos. Então, hoje tenho que me dividir entre manter esse padrão e ao mesmo tempo desempenhar minhas atividades como sócia de uma empresa, que demanda dedicação e aprendizado. Ter o mesmo desempenho que teria se me dedicasse inteiramente à atividade acadêmica é um desafio, mas aceito o risco e me disponho a atuar nessa fronteira como mais um parâmetro inerente, moderno e de qualidade da vida acadêmica.

A legislação não permite que eu seja sócia-administradora do empresa, e acho que seria um desperdício que assim o fosse, pois o que uma empresa de base tecnológica tem de mais precioso é o conhecimento científico e tecnológico de alto nível e o potencial de inovar. O papel dessa empresa não é só comercializar um produto: é transformar o conhecimento, inovar, desenvolver, colocar no mercado, transferir a tecnologia. Não tenho como abdicar das atividades como professora, então tenho que me desdobrar para cumprir os dois papéis. A demanda é grande. Mas, ao mesmo tempo, é um trabalho muito instigante e dinâmico. Não posso reclamar de monotonia e rotina!

Como profissional, sempre me interessei pelo novo, pelo desafio, pelo aprendizado. E como professora e pesquisadora tenho a missão de gerar conhecimento e não só transmiti-lo, de formar pessoal capacitado, estimular os alunos a empreender, mudar essa mentalidade. Do ponto de vista da empresa, existe a possibilidade movimentar a economia e de dar emprego a jovens doutores, como é comum em outros países. Também dentro dessa perspectiva, estou cumprindo meu papel e tenho presenciado um efeito multiplicador desse esforço, pois muitos dos meus alunos estão tentando empreender ou foram contratados por empresas para P&D, em um momento de restrição no país de recursos para pesquisa.

Outra questão é que dentro da universidade ainda existe preconceito. É preciso ter coragem e uma postura muito ética para lidar com essas questões. Por vezes, pessoas que trabalham comigo, por mais que entendam a importância desse movimento, comentam coisas como “eu sou o pesquisador, e ela é a empreendedora”. Atuar nas duas esferas, ainda levanta suspeitas e preconceito de que isso possa prejudicar a universidade. Nosso contraponto é trabalhar da forma mais transparente possível, sabendo que o que é produzido dentro da universidade é importante não só para a instituição. O conhecimento gerado por si só e mantido intramuros não faz sentido, a não ser que ele retorne a sociedade, sob a forma de benefícios e melhoria da qualidade de vida das pessoas. É ilusão achar que em um país como o nosso, o poder público vai absorver e transformar tudo sozinho. É necessário modernizar o público e o privado para que o conhecimento alcance e tenha impacto na vida das pessoas. Muitas patentes quando entram em licitação não são atrativas e transferidas para o setor privado, gerando ônus de sua manutenção pela universidade.

Você teve inseguranças com relação a desviar a atenção de algo relativamente estável para assumir os riscos de empreender?

Quando eu comecei a empreender, já estava em um estágio da minha carreira em que eu dominava as ferramentas e tinha um certo controle e facilidade para desenvolver minhas atividades. Mas empreender tem sido realmente desafio grande, associado à inseguranças grandes. Tive que aprender novas habilidades, mas a principal insegurança era o arcabouço legal e institucional para que eu pudesse exercer e conciliar as atividades. Embora eu já tivesse pensado em empreender em outros momentos, só fiquei realmente segura quando a legislação e a cultura da inovação e do empreendedorismo começou a mudar.

Alguns parceiros nessa trajetória foram muito importantes. A Fundepar, que hoje é um fundo de participação da Fundep, enxerga esse desafio do professor e pesquisador e dando o suporte na parte administrativa, financeira e de gestão que tem sido um diferencial. Realmente, para o profissional acadêmico que vai começar a exercer essas atividades é necessário contar com um suporte que reduza os riscos e que nos permita aprender com esse processo. Toda a minha educação foi voltada para pesquisa e ensino e, nem mesmo para a gestão pública, que a universidade demanda, eu não havia me qualificado.

O risco de abrir uma empresa na área de inovação é enorme, visto a porcentagem de startups que morre logo nos primeiros anos. Em biotecnologia, essa questão é ainda mais sensível. Diferente da tecnologia da informação, por exemplo, onde tudo é mais rápido e os investimentos são mais baixos, inovar em biotecnologia é um processo lento e oneroso. Sabendo que eu teria suporte para as questões administrativas, financeiras e jurídicas, minha insegurança inicial foi minimizada.

O risco é alto, mas eu acredito muito que, no mínimo, o que estamos fazendo é história. É um processo muito diferente do que era feito, até então, na UFMG e até em outras universidades do Brasil.

Atuar em mercados diferentes pede habilidades diferentes? Quais são as principais diferenças entre atuar na academia e atuar no mercado?

É um formato completamente diferente que temos que aprender. A forma como lidamos com recursos humanos dentro da universidade, tanto na formação discente quanto na gestão das relações com os servidores, é completamente diferente da gestão de recursos humanos no setor privado. O mesmo vale para a gestão do orçamento, e para captação de recursos em pesquisa. No setor privado, gerir recursos pode definir a sobrevivência da empresa, se será possível desenvolver novos produtos, contratar pessoas, entre outros, como custo da produção e de marketing. Além disso, estabelecer um valor de mercado de um produto envolve muito mais questões, como sua viabilidade, a demanda do mercado, e o custo da inovação. Inclusive como remunerar a universidade, caso você esteja lidando com uma patente desenvolvida em ambiente acadêmico.

Dentro de uma empresa, o tempo tem outra dimensão. As demandas acontecem de forma muito mais rápidas e os cenários mudam constantemente. É preciso estar aberto, conectado, escutar pessoas e opiniões. Porque embora as decisões tenham que ser tomadas com agilidade, não podem ser impensadas.

Qual era seu objetivo profissional ao empreender? Você sente que o esforço tem sido recompensado nesse sentido?

A perspectiva é que a Detechta coloque seu primeiro produto no mercado no ano que vem ou ainda este ano. Sem dúvidas, percebo que esse resultado não seria alcançado de outra forma. Converso com outros profissionais da universidade e vejo que muitos tem a ilusão de que o P&D realizado na bancada do laboratório está pronto ou em estágio avançado, e minha experiência mostrou que não é bem assim. Alcançar essa transformação só foi possível porque eu resolvi empreender. Muitos potenciais produtos oriundos de tecnologias e patentes acadêmicas não são validados e não sobrevivem á esse estágio. Às vezes no meio do caminho, temos que voltar ao começo, mas essa evidência só se alcança quando estamos focados no produto e não somente no processo.

O que você acha importante dizer para profissionais que pensam em seguir o mesmo caminho?

Primeiro, entender bem o mercado, quem são as empresas que atuam, seu estágio tecnológico e se seu potencial produto atende à demanda e tem viabilidade técnica e econômica. Ás vezes temos ideias brilhantes e inovadoras, evidencias de potenciais produtos, mas eles não são viáveis pois os parceiros produtivos não tem capacidade tecnológica ou econômica para produção. Para isso é preciso interagir com o mercado, tanto do setor público quanto privado. É preciso pesquisar não só patentes relacionadas, para entender se a tecnologia é de fato inovadora, mas entender o que ainda precisa ser feito para que o P&D se transforme em produto. Como eu disse, muito pesquisadores superestimam o estágio de desenvolvimento em que seus potenciais produtos e patentes se encontram e o valor de mercado em si de sua patente. Acho isso normal, pois conheço o outro lado e sei como é difícil fazer pesquisa no Brasil e como somos pesquisadores dedicados e obstinados. Transformar patentes em produtos não é um processo instantâneo, nem óbvio. É preciso conhecer mais esse outro lado.

Em segundo lugar, transparência. Agir com base na legislação. É o mais importante durante o processo. Assim como procurar os parceiros certos, como aqueles com características semelhantes ao da Fundepar. Essa é uma área que precisa ser expandida no Brasil.

Saber dosar o tempo e esforço é mais que uma habilidade. O patrimônio que temos como pesquisadores é fundamental para qualquer empresa que desenvolve tecnologia. Um bom equilíbrio entre a atuação nas duas esferas é importante para que a empresa não “mate a galinha dos ovos de ouro”: a capacidade de inovar.

Por fim, não deixe de tentar. Empreender é um desafio interessante e dinâmico. Mesmo se tudo der errado, você vai voltar para a sala de aula e para o laboratório com conhecimentos novos, com uma outra visão para compartilhar e transformar.

Autor BH-TEC

O objetivo do Blog do BH-TEC é compartilhar, por meio das experiências dos nossos colunistas, informações inerentes a CT&I, que perpassam a rotina das empresas de base tecnológica e impactam a vida de todos nós. Bem-vindo(a) a essa brilhante viagem!

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  • FRANCISCO BUZOLLO NETO disse:

    Espetáculo,um belo desafio para profissionais competentes e corajosos!Parabens Ana Paula e parceiros.Muitos frutos serão colhidos!

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