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A cultura como elemento para inovação

Por 4 de janeiro de 2018 Nenhum Comentário
Visitantes na pré-abertura do novo museu em Lens (2012) (Foto: Philippe Huguen/AFP Photo) Fonte da foto: https://goo.gl/u01mj

A inovação não é um ato isolado. Para entendê-la, é necessário compreender o chamado Sistema Nacional (Regional) de Inovação – conjunto de políticas públicas de inovação, industrial, educacional, renda e financiamento mais elementos institucionais, tanto formais, como associações de empresários, universidades, como também informais, tais como cultura, hábitos etc.

Esses conjuntos formam um ambiente sinergético para a geração de Ciência e Inovação. Países ou regiões que vivenciaram no último século o chamado Cating-up tecnológico – salto qualitativo de produtividade industrial e de geração de tecnologia e inovação – foram justamente aqueles capazes de desenvolver este Sistema Nacional (Regional) de Inovação, tais como Coréia, Japão, Vale do Silício e a Terceira Itália, entre outras.

Um aspecto importante neste contexto, e que aqui queremos destacar, é a cultura enquanto elemento facilitador dessa construção de um Sistema Nacional de Inovação. Existem, nesse cenário, três aspectos a considerar.

Em primeiro lugar, ambientes inovativos são, por definição, ambientes menos conservadores, pois a inovação é, por si só, um processo de negação do status quo. É um processo de superação, de transformação de realidades e de conhecimentos. A diversidade cultural é, nesse contexto, um elemento importante para que o sentimento de não imutabilidade possa florescer.

Ambientes culturalmente diversos são importantes para a inovação por implicarem na aceitação de que não existe verdade única, mas sim diferentes visões sobre o mesmo fato. Tais ambientes são mais propícios tanto a aceitar, quanto a desenvolver o novo. Não é por acaso que um dos exemplos mais difundidos de região inovativa é o Vale do Silício, localizado na Califórnia, um dos estados mais progressistas dos EUA.

Um segundo aspecto importante é a cultura enquanto elemento alimentador da criatividade, fundamental para o processo de inovação. Aqui podemos citar o papel desempenhado por equipamentos culturais para a transformação industrial e tecnológica de regiões, tais como as ocorridas em Bilbao, a capital da região autônoma do país basco, no norte da Espanha, e Lens na França.

São regiões em que a indústria local entrou em decadência por motivos diversos e que foram favorecidas pela introdução de equipamentos culturais de grande impacto, em conjunto com outras ações. Estamos falando do Museu Guggenheim Bilbao e do Louvre Lens, localizados em Pas-de-Calais, respectivamente.

Esses equipamentos culturais de grande porte atraem artistas, turistas, pessoas interessadas em cultura. Este fluxo de pessoas com este perfil atraem atividades complementares, não somente para entreter os visitantes, [ o que gera uma reação em cadeia. Além da produção cultural – conteúdo audiovisual, livros, música –, tais elementos atraem empresas – indústrias – que nutrem-se destes elementos, como design industrial, moda, inovação, entre outros. Indústrias intensivas em criatividade florescem melhor em espaços que têm a criatividade em sua essência.

Outro exemplo importante para destacar o papel da cultura no processo de transformação é o ocorrido na cidade de Paris. Nos anos 1990, existiu uma política criada pela prefeitura para, por meio da arte, melhorar as condições de vida em bairros degradados. A administração municipal oferecia incentivos para a instalação de ateliês e cursos de artes nessas regiões, tendo como efeito o rejuvenescimento local. Nesse caso, a cultura dialoga com o ordenamento espacial da cidade. Um novo fluxo de pessoas exige novos serviços, adaptações de estruturas físicas, e promove uma mudança na dinâmica da economia daquele local.

Não se está aqui dizendo que a cultura é o elemento determinante do processo de inovação, mas sim que ela é um elemento importante. Existem outros, como a extensão do território, a exemplo das cidades de São Paulo e Nova York. Porém, em outros ambientes onde o tamanho não é o elemento determinante, a cultura aparece como fator potencializador do processo inovativo.

Belo Horizonte é um destes casos. Conhecida como a capital das startups, pelo seu polo de biotecnologia, de TICs, da residência de uma das universidades com o maior número de patentes no Brasil – a UFMG -,  a cidade, coincidentemente, possui uma vida cultural significativa: Grupo Corpo, Galpão, Inhotim, Orquestra Filarmônica, festivais anuais como o FIT, Circuito Cultural da Praça de Liberdade entre outras inúmeras expressões culturais.

O que buscamos mostrar aqui é que inovação não é uma política isolada. Ela se sustenta em um conjunto de ações, políticas e elementos institucionais, e entre estes a cultura. Entender que tanto a diversidade cultural como a cultura como um todo é fundamental para o desenvolvimento econômico do país é essencial em um momento em que artistas são perseguidos, mostras de arte são censuradas e peças de teatro proibidas de se apresentarem. Estes casos não são apenas retrocesso sociais e culturais, mas também fatores que restringem o surgimento de ambientes propícios para o processo inovativo.

Autor Marco Crocco

Bacharel em economia pela UFMG, mestre em Economia Industrial e da Tecnologia pela UFRJ e PhD em Economia pela Universidade de Londres. Possui também pós-doutoramento pelas Universidades de Cambridge, na Inglaterra, e Paris-Dauphine ou Paris IX, na França. Atualmente, entre outras funções, Crocco é Diretor-presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais S.A. (BDMG) e Presidente do Conselho de Administração do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC).

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