Financiamento de CT&I

O dinheiro barato que você precisa saber que (ainda) existe

Por 17 de novembro de 2017 Nenhum Comentário

Não é lenda. Não é folclore. Há ainda muito dinheiro disponível para aqueles que querem ou sabem fazer inovação.

Em tempos de crise, essa parece ser mais uma daquelas histórias para boi dormir. Afinal, o novo pacote de incentivos do governo anunciado em outubro – que prometeu dar mais crédito às MPEs, disponibilizando R$ 8 bilhões em novos empréstimos a micro e pequenas empresas via instituições financeiras – ainda não surtiu o efeito esperado. Talvez não o faça, dada a complicada agenda do planalto pautada em modo “salve-se quem puder”, não há como acreditar em reformas ou uma forte alteração da política de crédito em ano eleitoral até o primeiro trimestre de 2019.

Mesmo o recente investimento do BID na FINEP de 1,5 bilhões de dólares que deve ser assinado em novembro – e conta com apoio direto à inovação tanto em setores estratégicos (agrobiotec, química, mineração e TICs), além de modernização e fortalecimento da inovação em micro, pequenas e médias empresas – não mudará muito o panorama de fomento. É fato que para quem está com sede, qualquer água é um alívio, mas o mais provável é que, depois de uns goles, continue a escassez de investimento governamental em editais não-reembolsáveis, ao menos a curto prazo.

Com essa lógica, o jogo a ser jogado continua o mesmo: as regras são as antigas e as peças exatamente as mesmas que estão no tabuleiro. Ruim? Talvez. É verdade que ainda há muito espaço para melhora em fomento a tecnologia e inovação no Brasil. Mas há algo de bom na inépcia da economia atual: o dinheiro subsidiado na modalidade reembolsável disponível para o empresário está acumulado e consequentemente mais volumoso. Os poucos projetos enviados estão captando os recursos com muita tranquilidade. É verdade: há dinheiro, e muito. E uma crescente flexibilização das agências, tanto quanto a formas de garantias quanto a escopos de projetos. Se você acredita em recuperação, nada melhor do que sair da crise capitalizado e com novos produtos no forno.

Mas se há dinheiro, por que não há projetos de inovação?

Engano. Há também. Mas não são percebidos como inovação. Ao menos num determinado conceito de inovação.

Explico: um dos enganos mais comuns sobre pessoas que ouvem falar de fomento à inovação é a desistência antecipada por achar que a própria empresa não inova. É a velha história do patinho feio que era cisne. Ou da síndrome do vira-latas. Da grama do vizinho. Escolha a imagem que preferir. Com o corpo técnico muitas vezes treinado na fronteira da ciência, grande parte de seus projetos de melhoria são só aplicações de tecnologias inventadas ou descobertas no exterior. Não são nada “novo”, dizem. Inovação no conceito geral invoca a mensagem de algo importante, algo que muda o rumo, algo que obsoletiza seu antecessor… e tal conceito deveras está correto. Mas não é bem isso que tem ocorrido no ambiente produtivo brasileiro.

Uma pesquisa recente da PA Consulting Group perguntou a líderes globais em inovação se seus executivos acreditam que são inovadores ou se estão satisfeitos com a maneira que lidam com inovação em suas respectivas empresas. Ficaria você surpreso se soubesse que 50% não acreditam que seus líderes possam ser inovadores? E que 76% das empresas disseram não estarem confiantes quanto a própria capacidade de gerar inovação?

Essa discussão reflete em parte o que ocorre no Brasil. O conceito geral de inovação tem um quê relativo: fica a cargo do interlocutor. Para a lei brasileira – que é o que importa para regular as ações de fomento – o conceito de inovação é deveras abrangente e pouco restritivo, até de certa forma alinhado com a capacidade industrial brasileira, num pensamento de inovação incremental “estamos começando” ao invés de inovações radicais “somos os caras”. Neste sentido, os programas existentes atualmente já permitem a captação de volumosos recursos a juros subsidiados tanto para o empreendedor que nunca inovou e quer começar a desenvolver um novo produto quanto para aquele que já desenvolveu algo mas que quer testar coisas novas para explorar novos mercados. Também está convidado aquele que está desenvolvendo, mas precisa escalonar e – inclusive –aquele que quer expandir sua produção do produto novo ou em desenvolvimento, mas enfrentará desafios que exijam P&D. Detalhe: o produto inovador pode puxar uma série de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento, setor de qualidade e expansão industrial, incluindo construção civil e maquinários de laboratórios e também de produção, desde que seja justificada pelo produto de inovação, ou seja, desde que envolva risco tecnológico a ser assumido e compartilhado.

Neste sentido, para o governo brasileiro é bem provável que você já inove há algum tempo, ou se não, que tenha plena capacidade para fazê-lo. Talvez lhe falte dinheiro. E apenas dinheiro.

Já sabemos por onde começar. Com o jogo definido, é fato que possuir as melhores peças ajudam enormemente no processo de aprovação para fomento da inovação. Projetos em contato com universidades e centros de tecnologia, pedidos de patente, participação de mestres e doutores e presença em parques tecnológicos são evidências de processos limítrofes com as fronteiras da ciência e inovação para a indústria. E trazem boas peças. É como jogar xadrez com várias rainhas – fica bem mais fácil. E isso provavelmente será necessário para competições árduas como editais com recursos não-reembolsáveis. Mas – observe que interessante – não é tão necessário para outras fontes de fomento.

Assim, o que precisa ser reforçado é que é possível – e aliás, bem comum – jogar xadrez com apenas uma rainha. E você não necessariamente precisa ser um Kasparov… só precisa se dispor a jogar, ou seja, planejar para inovar. Esse é o fundamento dos projetos com recursos reembolsáveis, com juros subsidiados muito abaixo dos empréstimos da rede bancária atual. E atualmente disponível para qualquer indústria que queira ao menos tentar inovar.

Mas isso só vale para o momento atual. Essa história, como todas as outras, pode sim mudar, pois na velocidade dos acontecimentos o amanhã já pode ser tarde.

O que nos leva à seguinte questão: e aí? Vamos jogar agora? Ou vai esperar virar lenda?

 

Autor Rodrigo Mota

Biólogo especialista em Gestão da Inovação pela Unicamp, atua com fomento e incentivos à inovação há mais de uma década. Em sua jornada, já passou da marca de centena de milhão em recursos de inovação. É um apaixonado por biotecnologia e inovação na cadeia de bioeconomy, e grande entusiasta do BH-TEC.

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