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Desafios e métodos para valoração de startups

Por 20 de novembro de 2017 Nenhum Comentário

Uma startup não é, necessariamente, uma empresa iniciante. Basicamente, deve ser uma empresa que resolve um problema significativo; gera impacto; possui uma estratégia de receita recorrente e um modelo escalável e rentável. Diferente de uma empresa tradicional, as startups passam por um ciclo de crescimento e rodadas de investimento mais ou menos consolidadas até chegarem na economia real.
O ciclo de vida de uma startup começa na concepção da ideia. Nesse estágio, os principais investidores são a família e os amigos, com quantias pequenas. Em seguida, no estágio de validação do negócio, a startup começa a consolidar o produto, a estrutura e a operação. Este é o momento em que entram investimentos dos “anjos” e fundos early stage – aceleradoras, incubadoras, seeders. Por fim, chega o momento de escalar o negócio. Nesta fase, a empresa recebe investimento dos big angels e venture capitals – os chamados series A, B e C.
Os desafios da valoração da tecnologia
A startup é um vetor de um ponto só: é difícil enxergar como o negócio estará daqui a alguns anos – pode ser um completo sucesso ou um total fracasso. Uma pesquisa da Fundação Dom Cabral mostra que 50% das startups brasileiras não passam dos 4 anos de vida.
Por isso, é difícil aplicar modelos de valoração tradicionais em empresas desse tipo, especialmente naquelas que ainda estão nos estágios iniciais. Para o investidor, é um desafio prever os fluxos de caixa no futuro. Startups são negócios dinâmicos, que mudam muitas vezes ao longo de seu ciclo de vida, tornando a projeção quase um exercício de imaginação. Normalmente, há um desalinhamento entre a perspectiva do investidor e a perspectiva do empreendedor, que costuma ser mais otimista.
Além da dinamicidade, há o fato de que startups propõem soluções novas, para as quais não existem referências comparáveis e amplamente aceitas. Se uma startup presta serviços para o setor de óleo e gás, por exemplo, não necessariamente vai se comportar como as empresas dessa indústria.
Por fim, há riscos inerentes à inovação. Novos mercados implicam modelos de negócio que ainda precisam provar-se eficientes, e pode haver barreiras tecnológicas a serem superadas até que o serviço possa cumprir o que promete.
Nesse cenário, o que diferencia um negócio aos olhos do investidor?
É comum ouvir dizer que na cabeça do investidor toda startup vale a mesma coisa. O que faz a diferença é qual vai ser executada, qual não vai. Por isso, essas empresas costumam ser avaliadas em uma lógica bottom up ao invés de top down: os especialistas dão preferência por investigar o que o negócio já tem e seu potencial para continuar no mercado em vez de basear-se em projeções de sucesso, que podem ser imprecisas.
Em uma startup pré-operacional, que ainda não emitiu nota e não tem receita, a valoração pode ser feita em cima de características como time, estrutura societária, oportunidade de mercado, posicionamento e qualidade do produto.
As habilidades e experiências dos empreendedores ganham grande peso nessa etapa. Uma ideia brilhante é fundamental, mas não vale de nada se o time não tiver capacidade de executá-la. Portanto, saem na frente profissionais experientes naquele mercado, que já geriram outros negócios ou que já trabalharam com captação de recursos em outros momentos – afinal, uma startup só sobrevive se conseguir continuar conquistando investimentos.
Isso não significa que a oportunidade de mercado não é considerada nessa conta. O tamanho do setor pode ser um indicativo de quanto dinheiro a startup será capaz de movimentar no futuro, desde a cadeia produtiva não seja tão eficiente, abrindo brechas para uma nova solução que otimize esse fluxo. Nesse sentido, o timing também é fundamental: esse mercado está pronto para absorver a solução proposta?
Por fim, o modelo de negócios também é avaliado. Além de ter que ser viável (as pessoas pagariam por este serviço?), a estratégia de precificação do produto pode se traduzir em risco para o investidor. Uma startup que se sustenta com muitos clientes pagando valores menores pode ser um investimento mais seguro que uma que sobreviveria com poucos clientes pagando valores altíssimos.
Quando a empresa já está em fase de validação, outros critérios ganham mais relevância. Calcular a quantidade de investimento necessário até que a empresa atinja o break even é uma estratégia possível. Os investimentos anteriores são avaliados como indicativo da segurança daquele investimento. E a estratégia de saída também é importante – quais as chances de as ações desta empresa serem vendidas por um valor considerável no futuro?
Os métodos não-tradicionais
Tradicionalmente, o valuation segue alguns métodos para racionalizar o valor da empresa e evitar que essa percepção se torne demasiadamente subjetiva. Exemplos dessas técnicas são o fluxo de caixa descontado (em que o valor é calculado a partir de uma projeção futura do fluxo de caixa, somada ao seu valor atual e subtraindo o tempo e o risco associados a essa estimativa); e o múltiplo de mercado (em que apura-se um valor atual de vendas e uma estimativa de vendas futuras e compara esses valores com os de empresas semelhantes).
Essas metodologias levam em conta aspectos que não são observáveis ou precisos em startups, o que leva à necessidade de criar novas alternativas.
Cada instituição costuma criar um método próprio, que pode ser derivado de metodologias consolidadas como o Venture Capital. Isso porque a valorização relativa é muito comum para startups. Basta observar o caso da compra do WhatsApp pelo Facebook: na época da transação, o valor de mercado do Twitter era muito mais alto comparado ao WhatsApp, tendo em vista que a empresa tinha, entre outros fatores, renda consolidada. Mas o que fazia do WhatsApp um grande negócio era a quantidade de usuários ativos. Com esse recurso, a empresa de Mark Zuckeberg pode inserir novos serviços no aplicativo e transformá-lo em um negócio extremamente rentável.
Dependendo do estágio em que a startup se encontra, o aporte pode vir na forma de crédito ou de um investimento que também oferece conhecimento e networking, em que o fundo se envolve no negócio. Essa estratégia faz sentido para startups porque ajuda a reduzir os riscos de uma morte prematura.
A sobrevivência ao longo dos ciclos
Com o avanço pelas rodadas de investimento, a startup vai sendo diluída. Um grande desafio nesse processo é fazer com que a empresa consiga todo o aporte necessário e, ao mesmo tempo, chegue a estágios avançados ainda com uma boa porcentagem em posse do empreendedor. Uma startup que chega ao Series A com 60% da empresa disponível para negociação pode ter sérias dificuldades em conseguir novos investimentos.
Esse equilíbrio também é importante para evitar que a motivação do empreendedor seja afetada. Esse elemento é fundamental para que o negócio dê certo. O fundador também pode perceber, ao longo do processo e avaliando o tempo necessário até o break even, que seria mais lucrativo trabalhar para outra empresa. Esses fatores são razões comuns para o fim de muitas startups.
Este artigo é um recorte do que foi discutido no 1º Encontro de Valoração de Startups de Minas Gerais, realizado pela FAPEMIG em parceria com duas instituições da UFV(CenTev e Funarbe) em 09/11/2017 no auditório do BH-TEC. O evento teve a participação de José Kobori, do IBMEC; Raphael Miele, da Kick Ventures; Felipe Marini, da Fundepar; André Rocha, colunista da Valor Econômico; Robert Edwin, da Antera; Raphael Braga, da FINEP; Fábio Cendão, da Faria, Cendão & Maia Advogados; Marcus Cordeiro, da ba}STOCKLER; Paulo Krieser, da Econodata; Prof. Leandro de Grassi, da Rizoflora; Vinícius Magalhães, da Triaxis; Walter Stern, da Stoller; Fernando Calaes, da FDC e Adriano Fabri, consultor empresarial.

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Autor BH-TEC

O objetivo do Blog do BH-TEC é compartilhar, por meio das experiências dos nossos colunistas, informações inerentes a CT&I, que perpassam a rotina das empresas de base tecnológica e impactam a vida de todos nós. Bem-vindo(a) a essa brilhante viagem!

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