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A pesquisa em biotecnologia e o controle da leishmaniose

Por 21 de novembro de 2017 Nenhum Comentário

Em 2017, o número de casos de leishmaniose do tipo visceral voltou a crescer em Minas Gerais. Os dados são preocupantes e apontam para a necessidade de ajustes na abordagem da rede de saúde pública. Mas o que esses números revelam?
Proporcionalmente, a leishmaniose sempre matou mais que a dengue. O Brasil tem, em média, 4 mil casos de leishmaniose em humanos por ano, com uma taxa de mortalidade que gira em torno de 10%. Embora a dengue atinja um registro maior de casos, a taxa de mortalidade costuma ser menor (3%).
Reduzir a taxa de mortalidade da doença depende do quão preparado está o sistema de saúde para diagnosticar os casos rapidamente. Há, no entanto, alguns obstáculos a serem superados.

Surtos cíclicos
Os sintomas da leishmaniose, normalmente, demoram para aparecer. Uma vez infectado, o paciente pode carregar o parasita nos tecidos por tempo indeterminado antes de surgirem as primeiras manifestações clínicas da doença. Por isso, um surto de casos diagnosticado pode apontar uma falha na prevenção anos atrás.

Observando os índices da doença ao longo dos anos, percebe-se que esses surtos são cíclicos. Até agosto de 2017, foram 31 casos de leishmaniose visceral em humanos notificados em Belo Horizonte, dos quais quatro resultaram em óbito. Desde os anos 2000, o pico de ocorrências da doença foi em 2008, quando a cidade registrou 161 casos. 2014 foi o ano em que a doença esteve mais controlada: ao todo, foram registrados 40 casos. Os dados são da Prefeitura.
Dentre os motivos que podem justificar o aparecimento de um surto estão a eficiência das medidas de controle, que podem não ter apresentado um impacto significativo. Mas há aqueles sobre os quais não se tem controle: alterações climáticas, desmatamento, poluição podem contribuir para que o vetor se multiplique. A leishmaniose atinge a fase de manifestação clínica mais rápido, caso o indivíduo esteja subnutrido ou imunosuprimido, o que inclui as mudanças socioeconômicas na equação.

Do ponto de vista da pesquisa, a pergunta permanente é: será que estamos fazendo um controle tão eficaz quanto nos anos anteriores? Sabe-se que houve uma mudança na forma como é feito o diagnóstico da leishmaniose. A redução da verba destinada a diversas instituições também têm impacto negativo relevante.
A diminuição do número de óbitos exige investimento e aprimoramento na rede de saúde pública como um todo – da prevenção ao tratamento. Só assim é possível manter um controle permanente, estabilizando o histórico.

Entenda o ciclo da doença
A leishmaniose é causada por um parasita, transmitido pela picada de um inseto conhecido como mosquito palha. Há vários tipos de leishmaniose no Brasil. As mais comuns são a cutânea, a mucosa, a cutânea difusa e a visceral. Algumas podem atingir tanto humanos quanto cães e outros mamíferos urbanos ou silvestres, como roedores.

A transmissão depende de cães ou roedores infectados. Isso porque no Brasil, o homem não é um hospedeiro eficiente como fonte de infecção para os vetores. Uma vez instalada no corpo, a infecção destrói tecidos como a pele, a faringe, a laringe, o baço e o fígado, causando lesões e comprometendo o sistema imune, a coagulação sanguínea e as funções renais.

Tratamento de animais hospedeiros: Medida individual x saúde pública
Assim como no caso da dengue, a prevenção da leishmaniose depende da eliminação do vetor. O acúmulo de matéria orgânica nos quintais das casas favorece a proliferação do mosquito palha, e as ações de conscientização da população fazem papel importante nessa etapa.

Por outro lado, tratamento dos cães infectados é encarado como uma medida individual. Até pouco tempo, o único método aprovado pelo ministério da saúde era o sacrifício. Hoje, existem outras alternativas, como a medicação e o uso de coleira inseticida. Existe também uma vacina desenvolvida por pesquisadores da UFMG, com eficácia significativa na prevenção da doença e que vem sendo usada também para tratamento. Impedindo a proliferação do parasita, a vacina evita que o cão adoeça e transmita a leishmaniose para humanos e outros animais.

O diagnóstico precoce dos cães assume importância fundamental na prevenção, já que a cura só é possível dependendo do estágio da doença e das condições de saúde do animal. Por outro lado, a viabilidade do tratamento também esbarra na capacidade do dono de minimizar os riscos de contágio e custear o tratamento. É possível que o cão seja medicado por anos sem eficácia, o que acaba sendo um sofrimento para o animal.

Controlar os surtos de leishmaniose depende, portanto, de um alinhamento de medidas de saúde pública junto a medidas individuais. A doença dos pets não pode ser vista como algo isolado.

Terapia é complexa; UFMG avança em sua otimização
O Brasil é referência no tratamento da leishmaniose. No entanto, as medicações são tóxicas e trazem efeitos colaterais, não sendo indicadas para grupos como diabéticos, cardíacos e gestantes. Há uma droga alternativa, recomendada pela OMS, mas que ainda tem um custo muito alto. Como a doença demora para apresentar sintomas, quando o diagnóstico acontece, o paciente pode estar muito debilitado, tornando a terapia mais delicada.

O tratamento exige um grande número de injeções, que podem se estender por muito tempo e nem sempre são eficazes. No caso da forma cutânea, A UFMG desenvolveu uma formulação capaz de simplificar esse tratamento. O medicamento, que é de uso tópico, pode ser usado sozinho ou associado a outras medicações, trazendo mais comodidade para o paciente com um método menos tóxico e mais curto.

A tecnologia foi transferida para a Fiocruz, e passará por testes clínicos para validar sua efiácia. Em um cenário de médio prazo, é possível que o Brasil conte com essa alternativa.

Pesquisa é forte, mas carece de incentivo
A UFMG tem tradição na pesquisa em prevenção, diagnóstico e tratamento da leishmaniose, e segue propondo soluções para o problema. Juntos, o CTVacinas e a sua spin-off Detechta, desenvolvem alternativas eficientes para prevenção, diagnóstico e tratamento da doença.

O grande obstáculo é a falta de incentivo financeiro. A pesquisa em biotecnologia é submetida a rigorosos testes de qualidade e à necessidade de investimento financeiro alto desde a pesquisa básica á produção em grande escala. Em tempos de crise no financiamento para pesquisa, a saúde da população acaba sofrendo o impacto.

O CTVacinas e sua spin-off Detechta têm investido em soluções para tratamento, vacinas e diagnóstico, incluindo protótipos e testes rápidos para diagnosticar a leishmaniose visceral canina e humana. A tecnologia já pode ser transferida para o setor produtivo público ou privado.

Este artigo foi escrito com a colaboração da professora Ana Paula Fernandes, professora e pesquisadora da UFMG e do CTVacinas.

Autor BH-TEC

O objetivo do Blog do BH-TEC é compartilhar, por meio das experiências dos nossos colunistas, informações inerentes a CT&I, que perpassam a rotina das empresas de base tecnológica e impactam a vida de todos nós. Bem-vindo(a) a essa brilhante viagem!

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