Inovação e Universidade

A universidade como sócia: conheça o arranjo institucional da Kunumi

Por 18 de agosto de 2017 Nenhum Comentário

Empresa cofundada por professor da UFMG em 2016 dispõe de arranjos institucionais diferenciados e pesquisadores de ponta para sair na frente no mercado. A parceria contorna problemas éticos e legais relacionados à transferência de conhecimento e desponta como alternativa aos entraves financeiros relacionados à pesquisa acadêmica.

A Kunumi é uma empresa especializada em machine learning (ou aprendizado de máquina). Em linhas gerais, a tecnologia permite que máquinas obtenham insights – algo tipicamente humano – a partir da análise de grandes volumes de dados.

O negócio foi cofundado pelo professor Nívio Ziviani e conta com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) como sócia, em um arranjo inovador que traz benefícios para ambas as partes.

A relação entre Ziviani e o empreendedorismo na universidade, porém, é de longa data.

Tentativa e erro

O professor participou de três grandes ondas na ciência da computação. A primeira, há cerca de 20 anos, era relacionada a metabuscas. Usando mecanismos de terceiros, a pesquisa conduzida dentro da UFMG criou ferramentas capazes de realizar a fusão de resultados de uma busca em sites de uma área específica, apresentados a seguir para o usuário que realizou a busca – algo parecido com o que a plataforma Trivago entrega hoje em dia.

A família de buscadores criada se tornou muito popular. Ziviani criou, em sociedade com o aluno que orientou no projeto, a Miner, que foi vendida para o grupo Folha de São Paulo/UOL 14 meses mais tarde. Na época, o professor ainda não havia conseguido envolver formalmente a Universidade no processo.

Já na segunda grande onda – a dos buscadores, na qual o grande expoente é o Google – o pesquisador desenvolveu um buscador independente. Com a experiência adquirida com a Miner, a tecnologia deu origem a um novo negócio – a Akwan, fundada em 2000. Dessa vez, a UFMG foi envolvida indiretamente por meio da Fundação do Desenvolvimento da Pesquisa (FUNDEP), que detinha 5% dos direitos sobre a empresa, em sociedade anônima. A intenção era a de colocar a universidade como sócia do negócio, mesmo que esse não tenha sido o arranjo jurídico correto.

Kunumi: um modelo aprimorado

A experiência com a Akwan serviu como base para aprimorar a peça jurídica que hoje inclui a UFMG como sócia na Kunumi. No modelo, a universidade tem usufruto inicial de 5% das ações da empresa, percentual padrão para empreendimentos do tipo nascidos dentro da instituição.

Esse convênio colabora para a superação de um dos maiores obstáculos burocráticos da pesquisa acadêmica: a transferência de conhecimento. Assim como os empreendimentos anteriores de Ziviani, a Kunumi surgiu de uma pesquisa desenvolvida dentro da UFMG, e a abertura da startup é uma estratégia para possibilitar a transformação do conhecimento gerado no meio acadêmico em riqueza para a sociedade.

Na ciência da computação, dado a velocidade com que avanços tecnológicos se sucedem, não é muito comum trabalhar com patentes. Portanto, nesse arranjo, a propriedade intelectual da pesquisa desenvolvida pelo professor é transferida na forma de know-how para a empresa em troca da participação nos lucros.

O arranjo é assegurado pelo Artigo 5 da lei da lei da inovação, de 2004. A decisão prevê que universidades podem “participar minoritariamente do capital social de empresas, com o propósito de desenvolver produtos ou processos inovadores que estejam de acordo com as diretrizes e prioridades definidas nas políticas de ciência, tecnologia, inovação e de desenvolvimento industrial de cada esfera de governo”.

Na prática, a UFMG tem direitos semelhantes ao dos demais acionistas, mas sem direito a voto. Isso significa que a instituição recebe dividendos dos ganhos da empresa, mas não tem voz na gestão. É necessário apenas notificá-la das mudanças mais importantes. Isso dá liberdade para que a Kunumi busque investidores e tome decisões de mercado de forma independente, sem interferência da instituição. O acordo evita questões como a que aconteceu com a Akwan, que teve que negociar a venda da empresa com a instituição sócia na época.

Essa parceria é comum em grandes centros de pesquisa internacionais, como o MIT e Stanford, mas ainda muito incipiente no Brasil. Existe, portanto, um valor intrínseco em apostar nesse tipo de arranjo, que aproxima as universidades brasileiras de estratégias que têm dado certo ao redor do mundo.

Proximidade sinérgica

Além das questões legais, a proximidade entre a Kunumi e o Departamento de Ciências da Computação (DCC) da UFMG possibilita outros tipos de sinergia. A empresa construiu um laboratório dentro do departamento, em que professores e alunos podem desenvolver projetos relacionados ao aprendizado de máquina.

Em contato com problemas reais trazidos pela experiência da empresa, os pesquisadores do departamento têm acesso a dados que dificilmente estariam disponíveis para a universidade. A oportunidade de trabalhar com temas importantes e reais colabora para elevar a qualidade dos artigos gerados. A parceria entre a engenharia da Kunumi e os pesquisadores da universidade já gerou pesquisas em co-autoria – outra alternativa encontrada para reduzir as barreiras da transferência de conhecimento.

Por outro lado, a proximidade com o conhecimento de excelência da universidade permite que a empresa possa competir com os maiores players do mercado internacional.

“Só é possível gerar tecnologia de ponta quando se tem pesquisa de ponta. O melhor lugar para encontrar esse potencial é a universidade.”

Nívio Ziviani

Outra questão que urge é a captação de recursos que não dependam de iniciativa governamental. O usufruto das ações de empresas é, claro, uma possibilidade, mas não a única. Dentro da Universidade, Ziviani já incentivou modelos de parceria em que alunos bolsistas da CAPES ou do CNPq pudessem trabalhar na indústria, desde que as atividades estivessem relacionadas ao tema da pesquisa desenvolvida.
A iniciativa, que, segundo Ziviani, hoje não acontece mais, poderia ser uma alternativa aos cortes recentes da remuneração desses pesquisadores. Atuando como bolsistas na Kunumi, graduandos, mestrandos e doutorandos têm a oportunidade de trabalhar perfeitamente alinhados com a pesquisa do DCC.
Uma alternativa à crise na pesquisa
É de interesse fundamental das universidades trabalhar em temas inovadores, formar bons profissionais e gerar benefícios para a sociedade. São tempos de redução nos investimentos destinados à pesquisa e de dificuldades em estabelecer acordos que desburocratizem a atividade. É necessário buscar saídas para que a inovação no Brasil não perca força.
Esse tipo de arranjo sinaliza uma aproximação das universidades com o setor privado, contornando dificuldades como cortes de bolsas e a lentidão nas negociações do Marco Legal da CT&I. Frente à dificuldade em encontrar empresas já constituídas no mercado dispostas a investir e absorver o conhecimento gerado no ambiente acadêmico, esse modelo de transferência de tecnologia é uma alternativa para que a transposição das barreiras da universidade seja possível.

Autor BH-TEC

O objetivo do Blog do BH-TEC é compartilhar, por meio das experiências dos nossos colunistas, informações inerentes a CT&I, que perpassam a rotina das empresas de base tecnológica e impactam a vida de todos nós. Bem-vindo(a) a essa brilhante viagem!

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