Ambientes de inovaçãoFinanciamento de CT&I

Pode vir que a água está boa. É sério.

Por 21 de julho de 2017 Nenhum Comentário

Crédito: Extreme Iceland

Fato: Winter is already here. A crise atual tem afetado como as empresas fazem novos produtos e serviços, dando uma gelada nos processos de inovação pendentes e inclusive alguns futuros. A ordem – sobreviver ao inverno – tem levado as empresas a simplesmente hibernar e esperar o sol de uma nova estação.

Outro fato: nunca foi tão vantajoso colocar uma canela dentro das águas dos parques tecnológicos. Além das boas condições tecnológicas com seus vizinhos, proximidade com universidades de referência e entrada nos sistemas locais de inovação, os incentivos financeiros ainda estão extraordinários considerando a legislação brasileira e o momento atual do país. De retornos consideráveis no imposto de renda para empresas de Lucro Real a empréstimos subsidiados só com aval dos sócios – com juros a uma fração dos cobrados pelo mercado diga-se de passagem – expandir sua área de novos produtos ou de desenvolvimento nessas instituições está muito mais fácil. E no frio da economia, ainda está baixa a presença de médias e grandes empresas inovadoras pelos parques tecnológicos país adentro. Ainda aguardam o fim da crise? Inovam sozinhas? Ou receiam fazer novos investimentos em inovação?

Ilustro: em Minas Gerais, há um programa de fomento muito interessante – e ainda pouco utilizado, chamado Proptec – que financia praticamente toda a necessidade de novos projetos em inovação para quem está dentro dos parques tecnológicos: obras, mobiliário, computadores, máquinas importadas, insumos, softwares, folha salarial… até capital de giro. Foi uma união do banco de desenvolvimento (BDMG) e FAPs locais (FAPEMIG), que bancam 100% do seu investimento, com maximização de carências (12 meses) e prazos de pagamento (5 anos), e redução de juros com inflação embutida (9% ao ano). E o melhor: sem ter que submeter projeto para avaliação. Isso mesmo, você leu certo. Basta que pertença a um parque tecnológico, e você terá até 2 milhões de reais sem garantia real, pré-aprovado, com longa carência e pagamento em suaves prestações até 2022 para a implantação, ampliação e modernização do seu projeto. A carta de aceite do parque vale como um atestado de que você é inovador aos olhos do programa. E não tem fila. E está disponível. E está aberto. E ainda assim, o parque tecnológico BHTec encontra salas disponíveis para locação.

Entre os diversos por quês de não ir – dez artigos seriam necessários apenas para elencar os diversos fatores da questão – o longo período de nevascas de incertezas estaria certamente entre os primeiros da lista. Porém, alguns setores como o de Biotech e Tecnologia da Informação mantiveram um bom crescimento na crise – esse último superior a 20% ao ano segundo a Redpoint EVenture Capital[1] – tendo níveis de inovação obrigatoriamente elevados para diferenciação e florescimento de seus produtos. Nesses setores, estamos sentindo a temperatura mais quente, vendo fusões e aquisições com a frequência de uma troca de estação.

Mas, se não se pode culpar a crise para alguns setores, os fatores devem então ser internos. E aí aponto: ou não veem valor no esforço de criar agora uma pequena estrutura dentro de parques tecnológicos, ou há desconhecimento sobre os mesmos. Já é sabido que inovar pode ser semelhante à prática do alpinismo na neve[2]: o caminho será difícil, não é trivial voltar atrás em uma campanha e o esforço pode ser muito grande para se chegar à linha do horizonte. O que na prática – me perdoem os alpinistas – não é prático. E nem barato.

Se é difícil escalar a montanha, ficar na base no frio parece igualmente ruim, esperando o verão chegar. Pode ser que seja mais fácil construir um iglu e hibernar: há tantos “porém” em abrir uma sala num parque tecnológico na crise que é difícil convencer os líderes das empresas a investirem recursos, mesmo que subsidiados, em um novo esforço de inovação. Talvez, no fundo, haja um receio – arrisco usar um medo – de que não valha a pena.

Neste pano de fundo invernal, comparo parques tecnológicos com uma piscina de águas termais, dessas de filme cercadas de neve eterna, características do norte europeu. E com algumas poucas empresas lá dentro nadando e usufruindo das águas quentes, bastante sorridentes. “Parece uma fria? Tem tudo para ser uma gelada?”. Mas elas continuam ali, aquecidas, aproveitando-se dos benefícios de programas de fomento esquecidos criados em tempos de crescimento e que ainda permanecem funcionais. Em um cenário onde as coisas se parecem estáticas e enregeladas, onde estamos passando frio esperando as andorinhas se aglomerarem para fazer o ditado popular valer, os parques tecnológicos mostram-se um oásis termal num inverno rigoroso, que podem permitir florescer um micro-habitat dinâmico, acessível e deveras evolutivo para a inovação.

Afinal, vale a pena entrar nessas águas? É certo que haverá desafios. Para quem já pensou em entrar, saiba que nunca esteve tão fácil. Para quem nunca, fica o convite para se aventurar nessas piscinas geotermais, mesmo que tudo pareça uma geleira ao redor. Há um quê de ousadia na inovação, semelhante à decisão de quem decide pular em uma piscina aparentemente fria. O inverno atual da crise talvez se prolongue um pouco além do previsto. E um mergulho em águas termais pode sim ser uma boa idea…  ainda mais quando você tem 2 milhões de motivos adicionais para isso.

Rodrigo Monteiro da Mota é consultor de biotecnologia e fomento à inovação

http://www.rm2inovacao.com.br/

[1] https://techcrunch.com/2015/09/27/as-brazilian-economy-descends-into-crisis-tech-is-growing-double-digits/

[2] https://www.nasa.gov/pdf/750525main_econ_of_innovation_mccurdy.pdf

Autor Rodrigo Mota

Biólogo especialista em Gestão da Inovação pela Unicamp, atua com fomento e incentivos à inovação há mais de uma década. Em sua jornada, já passou da marca de centena de milhão em recursos de inovação. É um apaixonado por biotecnologia e inovação na cadeia de bioeconomy, e grande entusiasta do BH-TEC.

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