Financiamento de CT&I

O elefante e a estaca

Por 8 de junho de 2017 Nenhum Comentário

Em uma palestra recente – dessas despretensiosas que estamos sempre reforçando o mais do mesmo – encontrei-me com um amigo empreendedor que havia iniciado sua jornada há alguns anos, e que me reportara estar um pouco iludido com o financiamento à inovação no Brasil. “Porque é tão difícil captar recursos de inovação e expansão da minha empresa?”

Me lembrara do caso. Bem no início de sua jornada, lá por 2008, teve infrutíferas suas tentativas de captação de recursos para acelerar seus projetos na empresa. À época, o empreendimento era praticamente recém-nascido: boas ideias, bom conteúdo de inovação, um bom desafio para trilhar… porém, poucas conversões, poucas notas fiscais, como era pra ser. Tudo normal. Um caminho de ébrio, avançando e retornando, mas rumando para algum lugar. De fato, havia razão no seu descontentamento. Naquele momento, ele não se enquadrava nos programas de fomento à inovação disponíveis, que – deveras – eram para dizer no mínimo, incompletos. As amarras eram fortes demais. Entre garantias e condições, preferiu seguir sozinho. Reclamou bastante de como as coisas não funcionavam. Que ele não conseguia sair do lugar nesse assunto. E que já havia desistido. Que a culpa era do sistema.

Talvez pela condição mais rotunda que o encontrei – ele havia ganhado uns bons quilinhos de lá pra cá – sua história me remeteu a um famoso conto do elefante de circo e a estaca. Confesso que procurei a origem do conto para aplicar-lhe os devidos créditos, mas não obtive sucesso. O conto ilustra uma condição dada a um pequeno elefantinho de circo, que, ao final de seus exaustivos treinamentos diários nas atividades circenses, era amarrado com uma corda a uma firme estaca fincada no chão. Ainda novo, o pequeno elefantinho tenta se desvencilhar de suas amarras em busca da liberdade, por certo gastando muita energia nas tentativas de se soltar. Porém, sempre chegava à exaustão, e o resultado era o fracasso. Preso, dia após dia aceitava sua condição. Os anos passam, e – por absoluto condicionamento – o mesmo elefantinho, agora um enorme paquiderme, ficava imóvel simplesmente com uma corda amarrada em sua pata encaixada na velha estaca bamba. Qualquer movimento o levaria à liberdade, mas ele não sabia disso:  havia desistido de tentar.

Perguntei ao meu amigo se ele havia sido levado a participar de novos programas de fomento. A resposta foi negativa. Um ou outro, mas nada sério o suficiente. “Para quê gastar mais energia?”. E eu sabia por outras fontes sobre seu crescimento. Não era mais um elefantinho. Disse-lhe que os programas de fomento à inovação no Brasil se modernizaram bastante: hoje é possível captar recursos bem mais volumosos – de centenas de milhares a alguns milhões de reais – com ampla carência contada em anos e com quase uma década para pagar esses empréstimos. E tudo isso, a juros muito próximos da inflação. E para qualquer empresa. Qualquer projeto. E sem garantia real. E com alguma rapidez. E que ainda há muito dinheiro disponível.

E o meu amigo rotundo empreendedor – exímio malabar cujo esforço de equilibrar os pratos parece não cessar jamais – disse-me: “Mentira. Me lembro bem como era impossível me soltar das amarras.”Lembrei-lhe: os tempos são outros. A saída da crise passa obrigatoriamente pelo aumento da competitividade das empresas e dos produtos brasileiros. E não há aumento de competitividade sem inovação. A captação de recursos para alavancar projetos de expansão atrelados à inovação fará toda a diferença para a sua liberdade no futuro. E emendei: “Por que não tentar novamente? Afinal, o que você faria na sua empresa com algum milhão a mais?”

http://www.rm2inovacao.com.br/

Autor Rodrigo Mota

Biólogo especialista em Gestão da Inovação pela Unicamp, atua com fomento e incentivos à inovação há mais de uma década. Em sua jornada, já passou da marca de centena de milhão em recursos de inovação. É um apaixonado por biotecnologia e inovação na cadeia de bioeconomy, e grande entusiasta do BH-TEC.

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