Experiências no Vale do Silício: o Boot Camp e o convênio com a UC Berkeley

Por 17 de novembro de 2017 Sem categoria Sem Comentários
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Evento que aconteceu na última sexta-feira, no BH-TEC, reuniu profissionais que participaram do Berkeley Boot Camp por meio de convênio celebrado entre a UFMG, BH-TEC, FIEMG e a UC Berkeley. Confira um resumo das experiências apresentadas.

A Universidade da Califórnia, Berkeley, é uma das mais prestigiadas do mundo. São 72 prêmios Nobel e uma rivalidade saudável com a Universidade de Stanford, que também ancora o Vale do Silício. A última edição do Café na sexta, que aconteceu dia 10, foi palco de uma inspiradora reunião de algumas pessoas do ecossistema que tiveram o privilégio de participar do Boot Camp em Berkeley. Eles compartiharam suas experiências durante um bate-papo. A participação deles no Global Innovation Program foi viabilizada graças a um convênio firmado em maio de 2016, entre a UFMG, BH-TEC, FIEMG e a UC Berkeley. O Boot Camp é um evento que congrega estudantes e professores semestralmente em Berkeley para discutir experiências e fazer networking, uma das base do sucesso do Vale do Silício.

Conduzindo o projeto Diplomacia da Inovação no Itamaraty, o diplomata e um dos responsáveis pela realização do convênio, Juliano Alves Pinto, mediou o bate-papo entre os convidados.

“Esse é um projeto no qual eu sempre acreditei. Meu trabalho fica mais fácil porque a UFMG sempre tem muito a mostrar a cada participação. Nosso país tem inovação, mas precisa se internacionalizar de forma mais proativa. Daí a importância de encontrar parceiros de alto nível para realizar essa ponte. O importante no Boot Camp é que lá as relações acontecem entre quem faz a inovação, sem intermediação burocrática.”

O professor Hermes Magalhãesda escola de engenharia da UFMG, sempre trabalhou com empreendedorismo e inovação e é profissional do meio acadêmico desde 2011. Nessa época, a escola de engenharia da UFMG buscava formas de conectar o conhecimento acadêmico com algo que gerasse valor para a sociedade. Com a colaboração de alunos das empresas juniores, o professor ajudou a transformar a disciplina de gestão de projetos em algo mais próximo do universo do mercado. O que estava sendo feito ali é muito parecido com o que Magalhães vivenciou em Berkeley.

“O que nos deixa muito otimistas com a experiência do Boot Camp é perceber que a diferença entre o que é feito lá e o que é feito no Brasil é, sobretudo, cultural. Lá, quando você apresenta sua ideia para alguém, logo recebe indicações de contatos e projetos que podem enriquecer o seu. Por aqui, é comum ouvir algo como ‘acho que alguém já está fazendo isso, não vale a pena tentar’. Essa ajuda automática é a diferença.
Vejo muita relação com a dialética de Sócrates. Conta-se que, na Grécia antiga, Glauco, irmão de Platão, estava empenhado em governar de Atenas. Sócrates, então, começou a interrogar o jovem, a fim de descobrir se ele tinha realmente as qualidades de um governante. A investigação, baseada em perguntas simples, conclui que Glauco não estava realmente qualificado para olhar para os problemas dos atenienses, apenas gostava da ideia de ser governante. Esse processo de mentoria é inspirador, remete à experiência de Berkeley e atenta para uma reflexão: para empreender, é necessário apaixonar-se pelo problema, e não pela solução.”

 O professor Gilberto Medeiros, da escola de engenharia da UFMG e coordenador da Coordenadoria de Transferência de Inovação e Tecnologia (CTIT) da instituição, trabalhou como coordenador de pesquisa na HP. Para ele, existe uma grande semelhança entre os alunos a UFMG e os de Berkeley.

“São estudantes que dão nó em pingo d’água. Costumo dizer, nesses eventos, que nossa maior contribuição para o exterior são nossos alunos. O Brasil é um país muito grande, são 7 milhões de inscritos no ENEM todos os anos, dos quais 1 a cada 1000 entram na UFMG. É uma turma que trabalha duro e realiza muito. Lá fora se faz muita coisa, mas aqui também. O grande ponto de reflexão é: como vamos internacionalizar essa produção?”

Essa é uma observação que Juliano endossa. Ele lembra que existem poucos países que compartilham PIB expressivo, população e território extensos. Isso significa que o Brasil tem envergadura para oferecer oportunidades em relações internacionais.

A engenheira de produção, Raíssa Guerra, subcoordenadora de operações do CTNano e co-fundadora da startup Nanobiotec, participou do Boot Camp no início deste ano. Seu empreendimento foi premiado em segundo lugar na competição.

“Foi uma das melhores experiências que eu já tive. O que mais me impressionou foi a capacidade das pessoas de te ajudarem sem esperarem nada em troca. São profissionais competentes que te ‘adotam’, e várias portas foram abertas para mim por essas pessoas que mal me conheciam. Volto para o Brasil com a visão de mostrar que esse tipo de comportamento vale muito a pena. Ecossistema é uma palavra chave que temos que desenvolver aqui: contribuindo com o que você pode, gera-se uma cadeia que impacta muita gente”.

Paying forward: o conceito de retribuir para o ecossistema aquilo que ele te proporcionou.

Karla Liboreiro é formada em psicologia e sempre trabalhou com recursos humanos e educação corporativa. Recentemente, saiu da indústria e passou a atuar na academia. Se antes a profissional acreditava que o conhecimento gerado no mercado era totalmente desconectado do saber acadêmico, as novas experiências mostraram que é possível estabelecer essa ponte. Este é, inclusive, o tema de seu mestrado e doutorado.

“A experiência foi fantástica e reveladora, mudou os rumos da minha carreira – isso vale para o antes, o durante e o depois. Eu ganhei a vaga para a viagem, mas não tinha vaga para o Boot Camp. Fiz, então, uma campanha de crowdfunding, em que 200 pessoas me ajudaram a cobrir os custos, além de uma ajuda que consegui com a FAPEMIG. As pessoas acham que a gente está indo para passear, mas a verdade é que é necessário correr muito atrás para conseguir aproveitar a experiência. Um convênio tão grandioso como esse tem que trazer retorno para a UFMG.”

Como psicóloga, ela conta que um fato que chamou a atenção é que mesmo estando em um ambiente fortemente influenciado pela área de exatas, seus conhecimentos foram muito valorizados. Juliano observa que o aspecto psicológico é parte fundamental do método de Berkeley. Nas escolas de engenharia, os alunos são ensinados a evitar o risco, algo fundamental para o sucesso do trabalho do engenheiro. No entanto, o ensino do empreendedorismo exige o contrário: é necessário aprender a assumir riscos.

Paulo Vítor é diretor de projetos do IEBT, empresa residente do BH-TEC, e também participou do Boot Camp em janeiro deste ano. O profissional faz parte de um projeto para propor novas formas de ensinar engenharia, e sua participação no programa foi orientada por esse viés. Das três semanas da viagem, Paulo destaca três momentos marcantes.

“Eu estava inseguro com o inglês. Logo na primeira palestra, pediram que a gente trocasse de lugar e se sentasse ao lado de alguém que não conhecíamos. Depois, tivemos que contar para esse desconhecido uma mania estranha que tínhamos e um caso de fracasso que tivemos. Essa experiência ajuda a quebrar o gelo, mas não é só isso. Você aprende mais quando está fora da sua zona de conforto, é uma oportunidade para extrair mais conhecimento.” 

Fail Fast: conceito que entende o fracasso como uma qualidade, um sinal de experiência que leva a melhores decisões no futuro. Para startups, em especial, ‘falhar rápido’ significa a oportunidade de ajustar o empreendimento ainda em fase inicial.

A administradora Vanessa Silva, gerente executiva da Anbiotec, trabalhou por dez anos no vale da eletrônica (em Santa Rita do Sapucaí – MG) e considera a experiência de Berkeley um sonho.

“Meu objetivo era aprimorar a ideia de trabalho em rede, como representante do setor de biotecnologia no Brasil. O principal aprendizado que fica é realmente o de fazer muitas conexões. Conheci pessoas com as quais mantenho contato até hoje. Outra lição é sobre cooperação: enquanto aqui no Brasil a política é de ‘o conhecimento é meu, portanto a informação é mérito meu’, lá as pessoas deixam a informação aberta para todos. Pessoalmente, um aprendizado muito importante foi o de que a perfeição é inimiga do bom. O Vale do Silício entende que a inovação não pode esperar. É melhor entregar algo que está apenas bom o suficiente e ir melhorando ao longo do processo. Essa vivência me fez tirar muitos projetos da gaveta quando voltei. Me perguntei: por que eu nunca coloquei nada disso em prática?”

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