Autoridades discutem, na FINIT, os caminhos para acelerar a inovação

Por 7 de novembro de 2017 Sem categoria Sem Comentários
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Dirigentes de instituições ligadas à CT&I se reuniram na última quinta para falar sobre o que falta para o Brasil avançar no cenário da inovação, em painel durante o evento

Quais são os fatores determinantes para um desenvolvimento acelerado da inovação? O painel “Como integrar parques tecnológicos ao contexto de vivência das universidades?”, realizado na última quinta, 02/11, durante a FINIT, reuniu nomes de peso para discutir o assunto em uma visão macro.

O debate teve a coordenação de Adriana Ferreira de Faria (NTG/UFV – Coordenadora do Painel); participação Evaldo Ferreira Vilela (Presidente da Fapemig); Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente da Anprotec); Mario Neto Borges (Presidente do CNPq); Ronaldo Pena (Diretor Presidente do BH-TEC) e Vanderli Fava de Oliveira (Presidente da ABENGE).

As autoridades discutiram os maiores desafios deste modelo e quais as propostas para contornar os principais gargalos, visando o amadurecimento dos ecossistemas de inovação. O debate teve a duração de 2h.

O Brasil nos rankings internacionais

O Brasil segue retrocedendo nos índices mundiais de inovação e competitividade. Este ano, o país ficou na 69ª posição do ranking de países mais inovadores divulgado anualmente pela parceria entre a Universidade Cornell, nos Estados Unidos, a escola de negócios Insead e a Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI). Adriana Faria observa que, em 2011, chegamos a ocupar a 47ª colocação.

Já no índice de economias mais competitivas, divulgado pelo International Institute for Management Development (IMD), com sede na Suíça, e pela Fundação Dom Cabral (FDC), o Brasil foi classificado em antepenúltimo lugar em 2017. No relatório deste ano, o país aparece em 61º lugar, tendo chegado a 38º em 2010.

Diante dessa situação, como identificar e sanar os principais entraves para o desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação no Brasil?

Investimento é barreira, mas o talento existe

No Brasil, o setor público é responsável por metade do investimento feito em pesquisa em desenvolvimento. Em outros países, a porcentagem de investimento privado chega a 75%. Há disparidade também na porcentagem do produto interno bruto investido na área. Enquanto os países melhor avaliados nos rankings de inovação e competitividade chegam a investir mais de 2% do PIB em P&D, no Brasil essa parcela não chega a 1%.

Em um quadrante que considera a complexidade da produção e o grau de inovação, o Brasil é considerado um montador. Aqui são fabricados bens de alta complexidade, mas ainda inovamos pouco. Ainda que a balança comercial esteja favorável, a maior parte das exportações brasileiras são commodities.

Ainda assim, relata o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Mário Neto Borges, 2,5% da produção científica mundial é brasileira. As falhas estão em transformar esse conhecimento em produto no mercado – daí a necessidade de aumentar o investimento em tecnologia e inovação.

O presidente lembra que na lista de pessoas mais influentes em 2017 da revista Time esteve listada a médica epidemiologista Celina Turchi, de 64 anos. A cientista brasileira teve atuação fundamental nas pesquisas que permitiram equacionar o problema da zika nos últimos dois anos. Se o Brasil consegue destaque na ciência, o que falta para que continuemos avançando?

Mesmo a produção de commodities tem tecnologia envolvida. Mário Neto faz questão de ressaltar que o trabalho dos cientistas brasileiros é que permitiu que o Brasil, hoje, extraia mais petróleo de camadas submarinas que em terra, além de ter eficiência no cultivo e colheita da soja. Mas os exemplos são escassos.

O CNPq tem investido na aproximação entre universidades e empresas na tentativa de criar oportunidades para que a inovação aconteça. O programa Doutorado Acadêmico Industrial é um exemplo. Invertendo o fluxo tradicional, em que a universidade determina o que será pesquisado, a ideia é que a indústria possa apresentar problemas e as universidades proponham soluções. A iniciativa é baseada em dados que comprovam que o impacto da inovação criada em parceria com empresas é 4x maior que o de soluções sem envolvimento do setor privado.

Uma universidade que não existe mais

A aproximação entre a academia e o empreendedorismo, aliás, é um ponto fundamental na discussão. É seguro afirmar que a sinergia entre empresas, universidades e governo – a chamada a chamada Tríplice Hélice – é um dos mais importantes fatores para acelerar a inovação. O exemplo clássico do que aconteceu no Vale do Silício é prova suficiente. A partir de uma iniciativa isolada, estudantes, professores e empreendedores se uniram em um interesse comum e a convivência em conjunto gerou um terreno fértil para o desenvolvimento tecnológico acelerado. A Califórnia deixou de ser um estado majoritariamente agrícola e, hoje, é uma potência econômica maior que o Brasil inteiro.

Para Jorge Audy, presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e um dos idealizadores de um dos parques tecnológicos referência do Brasil, o Tecnopuc, há uma certa resistência por parte das universidades em interagir com o setor privado, considerando que a instituição pode acabar “vendida” ao mercado. A autoridade acredita que esse é o imaginário de uma universidade que não existe mais. Mesmo as escolas mais tradicionais, como Cambridge e Oxford, contam com parques tecnológicos atuantes e forte ligação com empresas há pelo menos meio século.

Para o presidente, o fator crítico para que a inovação aconteça é gente: gente com talento, gente com ideias e gente com capital. “A universidade é um alicerce central para a inovação porque é onde esse talento e conhecimento são gerados. Por isso, deve ser ativa na relação com o governo e com as empresas, agindo diretamente e promovendo a transformação social através da CT&I”, afirma.

A universidade se transforma, e agora é o momento de as instituições brasileiras incorporarem uma terceira missão: além do ensino e da pesquisa, a universidade deve ser promotora de inovação. E isso, segundo Audy, pede uma modernização da gestão e da estrutura do ambiente acadêmico. Parques tecnológicos não trabalham sozinhos: a universidade precisa ter liderança e visão de futuro.

O segredo é a convivência: Parques tecnológicos em Belo Horizonte

Há, hoje, mais de 2000 parques tecnológicos espalhados pelo mundo inteiro. Só no Brasil são 94, dos quais cerca de 30 estão em operação e o restante em fase de projeto ou implantação. Em Belo Horizonte, o BH-TEC abriga 21 negócios inovadores.

Para o diretor presidente da instituição, Ronaldo Pena, o segredo é a convivência entre os atores. O BH-TEC é um ambiente de negócios que sintetiza os elementos da nova economia do conhecimento, reunindo empresas de base tecnológica, centros públicos e privados de tecnologia e serviços de apoio. Operando desde 2012, o Parque é resultado da parceria entre a UFMG, o Governo do Estado, a Prefeitura, o SEBRAE e a FIEMG, além de ser apoiado pela FAPEMIG e pela FINEP.

Com este arranjo institucional forte, o BH-TEC atua como um instrumento para dinamizar a relação entre os diferentes atores engajados no processo de inovação, visando aumentar a competitividade brasileira em prol do desenvolvimento econômico e social.

Hoje, o Parque enfrenta desafios relacionados à captação de recursos. O Parque ainda depende de editais de financiamento para custear as atividades e expandir a estrutura, que hoje está 100% ocupada. Além disso, os projetos esbarram nas dificuldades culturais em estabelecer relações entre universidade e setor privado e na burocracia envolvida nos processos de propriedade intelectual.

Ainda assim, em 2016, o BH-TEC contabilizou 75 novos produtos e serviços lançados, em conjunto, pelas empresas do Parque, além de dois novos pedidos de patentes e um total de R$ 15,4 milhões investidos em P&D, representando um crescimento de cerca de 487% em relação a 2015. Ao longo dos últimos cinco anos, foram mais de R$ 45 milhões de reais investidos ao todo. São R$ 82,1 milhões em faturamento e R$ 11,5 milhões em impostos recolhidos, na soma anual.

O ecossistema de inovação é a cidade

Para o diretor presidente, o desenvolvimento econômico sustentável a longo prazo é baseado na inovação. Portanto, esse deve ser um assunto de estado. Essa também é a visão de Jorge Audy, que vai mais longe e afirma que as empresas inovadoras como o Google ou a Apple ditam o nosso estilo de vida.

Nesse sentido, os parques tecnológicos são, para as cidades, mais que ambientes de inovação isolados: eles representam uma mudança espacial muito importante. A existência de um parque tecnológico determina e orienta o crescimento da cidade, como intervenção urbana, e o fortalecimento de empresas inovadoras tem um impacto relevante no perfil e nas condições de empregabilidade da população. Mais que um ambiente interessante para trabalhar, os ecossistemas de inovação tornam seu entorno um ambiente melhor para se viver. Mais uma vez, o Vale do Silício é exemplo: esse ecossistema transformou a região em que está instalado e hoje engloba cerca de 12 cidades.

Esse movimento também deve acontecer da universidade para a cidade. Audy observa que falar em “aproximar a universidade da sociedade” é supor que universidade e sociedade são coisas separadas, quando na verdade uma está inserida na outra.

O ensino 2.0: como formar o profissional que o mercado precisa?

Minas Gerais tem tradição no ensino de engenharia. Em 2016, foram mais de 100.000 engenheiros formados no estado. O presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE), Vanderli Fava de Oliveira, enxerga uma falha no funil. A cada 1000 candidatos à graduação na área, 175 conseguem uma vaga e apenas 95 se formam. E isso se traduz em uma carência de profissionais especializados.

Este é um dos indicadores que levaram à reformulação das diretrizes curriculares para o ensino de engenharia no Brasil. O presidente explica que os cursos hoje estão muito longe da realidade do novo ingressante. Focado em disseminar conteúdos, o ensino falha em estimular o aprendizado do aluno, que tem poucas oportunidades de ser ativo no processo. Assim, as escolas têm dificuldades em formar o engenheiro que o mercado precisa.  “É como se a educação ainda fosse 1.0”, observa.

Para Oliveira, o discurso de alinhamento entre teoria e prática precisa incluir um terceiro fator: o contexto. Tendo em vista que o engenheiro é um projetista de soluções, é necessário que os estudantes da área possam ter contato com o cenário do problema. Os parques tecnológicos podem funcionar, então, como uma plataforma para essa interação entre os desafios do mercado e a nova leva de profissionais que lidarão com eles.

 O futuro acontece via ciência, tecnologia e inovação. Mas o Brasil não sabe disso.

É visível que a ciência, tecnologia e inovação acontecem no Brasil, mas ainda de forma lenta e escassa. A CT&I soluciona problemas – inclusive os socioeconômicos – que não poderiam ser solucionado antes. Mas, na visão de Evaldo Vilela, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação em Minas Gerais (FAPEMIG), é como se o país não desejasse construir o futuro por este meio.

O presidente afirma que a ciência nunca foi uma invenção da sociedade. Desde os regimes monárquicos, a inovação é financiada pelas grandes fortunas. Por isso, aproximar o tema da sociedade é uma tarefa hercúlea, na visão da autoridade. No entanto, esse entendimento é fundamental para que a CT&I obtenha apoio e continue avançando. É preciso promover uma mudança de cultura, e a ciência tem o papel de se fazer entender ativamente.

Por isso, eventos como a FINIT são importantes. Da mesma forma, são os ambientes de inovação, como os parques tecnológicos: empreender é solucionar um problema, e isso significa aproximar a inovação da sociedade de uma forma direta.

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